24/11/2014

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Série : Replantando hoje a igreja de amanhã - Parte 2


Uma das causas pela qual não encontramos pesquisas sobre a morte da igreja dá se pelo fato de que é mais fácil falar das vitórias do que das perdas, e da expansão do que da extinção. A questão é que não podemos ignorar os fatos, igrejas morreram durante a história. Assim, se queremos entender o ciclo de vida da igreja e a causa de sua morte, precisamos olhar para o passado sem fechar os olhos. Quero então destacar aqui, alguns teólogos que  defenderam a hipótese de que a perseguição da igreja é o que a leva à sua extinção não só ontem, mas hoje também. 

O historiador Philip Jenkins, por exemplo, nos ajuda a entender de forma detalhada em sua obra, The Lost History of Christianity, a morte da igreja local. Ele estuda o desaparecimento das igrejas em vários períodos, que vão da Idade Antiga até a Idade Média, em vários locais como o Oriente Médio, África e Ásia. Um dos argumentos gerais do livro é que a forma com a qual os historiadores têm contado a história da Igreja primitiva e medieval ressalta a expansão e crescimento das igrejas, mas em contrapartida, ignora as histórias do declínio e extinção de várias comunidades cristãs.[1]

Hampton Halley destaca em um de seus livros que no período da Igreja Primitiva podemos observar onze grandes perseguições enfrentada pela igreja o que em muitos casos levou a extinção de comunidades cristãs.[2] 

Nero. Em 64 d.C. Ocorreu o grande incêndio de Roma. O povo suspeitava de Nero; este, par desviar de si tal suspeita, acusou os cristãos e mandou que fossem punidos. Milhares foram mortos de maneiras crudelíssimas, entre eles, Paulo e, possivelmente, Pedro.

Domiciano. 96 d.C. Este organizou uma perseguição aos cristãos sob a acusação de se recusarem participar do culto do imperador. Muitos milhares foram mortos em Roma e na Itália.

Trajano, 98-117 d.C. Não procuravam cristãos, porém, quando estes eram acusados, sofriam castigo. Plínio, enviado pelo imperador, à Ásia Menor, onde os cristãos se haviam tornado tão numerosos que os templos pagãos quase ficaram desertos, e que fora mandado para castigar os que recusassem a amaldiçoar a Cristo.

Adriano, 117-138, perseguiu os cristãos, mas com moderação. Teléforo, pastor da igreja em Roma, e muitos outros, sofreram martírio.

Antonino, o Pio, 138-161. Este imperador de certo modo favoreceu os cristãos, mas sentia que devia manter a lei, havendo, por isso, muitos mártires, entre os quais Policarpo.

Marco Aurélio, 161-180. Foi cruel e bárbaro, o mais severo depois de Nero. Muitos milhares foram decapitados ou lançados às feras, entre os quais Justino, o Mártir.

Sétimo Severo, 193-211. Esta perseguição foi muito pesada, porém não generalizada. O Egito e o norte da África foram as regiões que mais sofreram. Em Alexandria “muitos mártires eram diariamente queimados, crucificados ou degolados”, entre os quais Leônidas, pai de Orígenes.

Maximiano, 235-238. Neste reinado, muitos líderes cristãos proeminentes foram mortos. Orígenes escapou, escondendo-se.

Décio, 249-251, decidiu-se, resolutamente, a exterminar o cristianismo. Sua perseguição estendeu-se por todo o império, e foi muito violenta; multidões pereceram sob as mais cruéis torturas, em Roma, norte da África, Egito, Ásia Menor. Cipriano disse: “O mundo inteiro está devastado.”

Valeriano, 253-260. Mais severo do que Décio, visava destruir completamente o cristianismo. Muitos líderes foram executados, entre eles Cipriano, bispo de Cartago.
Diocleciano, 284-305. Foi a última perseguição imperial e a mais severa; estendeu-se por todo império. Foi um esforço resoluto, determinado e sistemático por abolir o nome de cristão.

A oficialização do cristianismo como religião do império romano não pôs fim à perseguição, pois cristãos na Pérsia, depois de experimentarem anos de liberdade religiosa e possivelmente estarem no caminho para se tornarem a maior religião, foram perseguidos. Após a oficialização, mais de 190.000 cristãos foram martirizados na Pérsia, por mais de 40 anos.[3]

Isto ocorreu também na China, após o fim da dinastia de Tang, que dos anos de 618 até 907, permitiu a presença de cristão dando toda liberdade a estes que cresciam significativamente. Porém, com o fim desta dinastia, os cristãos desapareceram. Os cristão retomaram um crescimento durante o período de 1271 à 1368,  graças ao império Mongol, mas sofreu perseguição e teve seus líderes expulsos com o início da dinastia Ming.[4]

Com a chegada dos comerciantes portugueses no Japão, por volta de 1542, cresceu o número de cristãos, algo que se aproximava em torne de 300 mil no período de 50 anos, mas em meados de 1587 todos os estrangeiros foram expulsos do Japão.[5] A partir de 1614, os cristãos enfrentaram intensas perseguições, e isso resultou na morte de uma infinidade de igrejas. Isso foi constatado com a volta de missionários às terras japonesas em 1858.[6]

Após a oficialização do cristianismo, como religião do império romano, as perseguições diminuíram por um período de tempo, porem logo várias igrejas desapareceram pela força e “espada”. Jenkins mostra isso em seu livro e chega a reafirmar sua posição em uma entrevista a Christianity Today:

O que mata uma igreja é a perseguição. O que mata a igreja está armado, normalmente no interesse de outra religião ou uma ideologia antirreligiosa, e às vezes isso pode significar a destruição ou remoção de uma comunidade étnica que pratica o cristianismo. Então, igrejas morrem pela força. Eles são assassinadas.[7]

O movimento armado, que ficou responsável pela destruição e remoção de diversas comunidades cristãs, foi o islamismo ou que Halley chamou de maometismo:

Em 634 a Síria foi vencida; em 637, Jerusalém em 638, o Egito; em 640, a Pérsia; em 689, o norte da África; em 711, a Espanha. Assim, dentro de pouco tempo toda a Ásia Ocidental e o norte da África, berço do cristianismo, tornaram-se maometanos... na Ásia Menor 630.000 cristãos foram chacinados.[8]

Jenkins aponta alguns fatos importantes ao dizer que o núcleo inicial do movimento cristão era Jerusalém, com igrejas que iam do leste em direção ao que conhecemos hoje como Iraque e o Irã (Pérsia), a oeste em direção a Europa, e em direção ao sul da Etiópia. A igreja do Oriente tinha comunidades grandes e significativas, que chegavam na China, Tibete e Índia. Para o autor do movimento cristão, a perseguição foi enorme, na África e na Ásia, ao ponto que estes locais possivelmente foram os centros do movimento cristão em vez da Europa, especialmente no milênio de 400-1400. Porém, por conta das invasões muçulmanas nos século VII, estas duas regiões perderam as suas forças e morreram.[9]

Outros importantes pesquisadores[10], mesmo tendo publicado as suas obras há quase um século, destacam em seus livros a perseguição contra a igreja como motivo de extinção da mesma. Em 1898, Leonardo Ralph Holme, publicou um livro sobre a extinção de igrejas no Norte da África dizendo que a razão para tal extinção tinha como motivação o avanço dos "Vândalos" (439 d.C. – 533 d.C.) e reocupação bizantina (533 d.C. – 647 d.C.)juntamente com as incursões pelos invasores berberes durante os dois períodos o que preparou o palco para o rápido avanço das forças militares islâmicas árabes em meados do sétimo século o que resultou na extinção da igreja nesta região.[11]

A perseguição dos grandes impérios e a perseguição religiosa islâmica foram responsáveis pela extinção de comunidades cristãs e igrejas em várias partes do mundo por quase 1500 anos. Porem sabemos que o islamismo ou os grandes impérios não são os únicos responsáveis pela extinção da igreja em outros momentos da história, pois mesmo durante a Reforma Protestante, a perseguição não Cessou.

Muitos cristãos que pensavam que a oficialização do cristianismo, como religião oficial, daria fim a perseguição se decepcionaram. Com a Reforma Protestante a expectativa era a mesma e, consequentemente, a decepção entre os protestantes também. Um bom exemplo disso foi a Contrarreforma e a Inquisição, movimentos[12] da Igreja Católica Romana, que tinham a missão de neutralizar e reverter a crescente Reforma Protestante.[13]

Halley destacou alguns países que mais sofreram com estas perseguições.

Nos Países Baixos, a reforma foi logo aceita; luteranismo, e depois calvinismo; os anabatistas já eram numerosos. Em 1522 estabeleceu-se, aí, a Inquisição, que mandou queimar todos os escritos luteranos. Em 1535, decretou a “morte, pelo fogo”, dos anabatistas. Filipe II (1566-98), sucessor de Carlos V, tornou a expedir os editos de seu pai, e, com o auxílio dos jesuítas, levou adiante a perseguição com fúria ainda maior. Por uma sentença da Inquisição, toda a população foi condenada à morte, e sob Carlos V e Felipe II mais de 100.000 foram massacrados com brutalidade incrível.

Na França. Por volta de 1520 as doutrinas de Lutero penetravam na França. Em 1557, o papa urgiu o extermínio deles. O rei expediu decreto do massacre e mandou a todos os súditos leais que ajudassem a caçá-los. Os jesuítas percorreram a França, persuadindo seus fiéis a empunhar armas para destruí-los. Assim perseguidos pelos agentes do papa, como nos dias de Diocleciano, reuniam-se, ocultamente, muitos vezes em adegas, à meia-noite.

O massacre de São Bartolomeu. Catarina de Médicis, mãe do rei, romanista ardorosa e instrumento dócil do papa, deu a ordem, e, à noite de 24 de agosto de 1572, 70.000 huguenotes, inclusive a maioria dos seus líderes, foram trucidados. Houve grande regozijo em Roma.

As guerras huguenotes. Em seguimento ao massacre de São Bartolomeu, os huguenotes uniram-se e se armaram para a resistência, mas depois de anos de trabalho dos jesuítas, às ocultas, o Edito foi revogado em 1685 e 500.000 huguenotes fugiram para países protestantes.

A Revolução Francesa, cem anos mais adiante, 1789, foi uma das mais tremendas convulsões que a História registra. Levantou-se um reinado de terror e sangue, e aboliu o governo, fechou as igrejas, confiscou suas propriedades, tentando suprimir o cristianismo.[14]

Observamos que o exercício do poder despótico ao longo da História resultou no extermínio de várias igrejas no Oriente Médio, Ásia, África e Europa, todos continentes que no passado possuíam grandes comunidades cristãs. Porém, hoje, vivemos em tempo de paz e liberdade religiosa por várias partes do mundo, ainda assim a perseguição é algo presente em diversos países. Em alguns países como a Coreia do Norte é proibido até ser cristão. O presidente do país Kim Jong II determina que todos os cidadãos devem adorar somente a ele e, se negarem ou assumirem uma identidade cristã, por exemplo, são punidos com prisão ou morte.

A ONG internacional, Open Doors, por quase 60 anos atua em países onde existe algum tipo de restrição ou ameaça à vida das pessoas ou à sua liberdade de crer em Jesus Cristo realiza uma pesquisa, World Watch List, a cada ano a fim de descobrir os cinquenta países que mais perseguem a igreja. Destes, onze sofrem perseguições extremas: Coreia do Norte, Arábia Saudita, Afeganistão, Iraque, Somália, Maldivas, Mali, Irã, Lêmem, Eritreia e Síria. 

O Open Doors, mesmo auxiliando cristãos perseguidos, encara a perseguição de forma otimista. Fácil é entender tal otimismo da Open Doors quando analisamos algumas estatísticas. Países como o Irã e Afeganistão, de maioria muçulmana e que fazem parte dos países que mais perseguem os cristãos, vivenciam um crescimento acelerado do número de cristãos. No Irã por exemplo, a população cristã cresce a uma taxa de 19,6% por ano. Já no Afeganistão, a taxa é de 16,7%.[15]

Como explicar um crescimento no meio de tanta perseguição? Para Tertuliano, a perseguição era como um fermento para as igrejas. Ele chegou a dizer que: “Nós nos multiplicamos sempre que somos moídos por vocês; o sangue dos cristãos é a semente” (Apologeticus, 50). Jerônimo chegou a dizer algo semelhante: “A igreja de Cristo foi fundada pelo derramamento do sangue dele... As perseguições a fizeram crescer; os mártires a coroaram” (Carta 82). Joham Candelin explica essa realidade da seguinte forma:

Nem sempre a perseguição produz o crescimento da Igreja, ainda assim, alguma das maiores e mais crescentes igrejas do mundo enfrentam um aumento da perseguição, e estão localizadas em países onde não há liberdade religiosa.[16]

Por meio de tudo que observamos até agora, uma das causas da extinção da igreja local é a perseguição. Porem, mesmo a história nos mostrando que perseguição foi a causa da extinção de algumas igrejas no passado, como explicar o crescimento das igrejas em meio a hostilidade? Como explicar também a extinção de igrejas em locais onde o estado é laico e existe liberdade religiosa, principalmente no ocidente? Estas são  perguntas que ainda precisam ser respondidas. 

Confira o Capítulo 1

Notas

[1] Jenkins afirma que: “Teólogos raramente abordam as questões perturbadoras levantadas pela destruição de igrejas e das comunidades cristãs. O mais importante, e que temos que reconhecer que tais incidentes de declínio e desaparecimento são bastante frequentes, porém pouco se tem estudado e discutido. Descristianização é um dos aspectos menos estudados da história cristã.” Ver em, JENKINS, Philip. The Lost History of Christianity. New York: Harper Collins Pub., 2008, p.28-29
[2] HALLEY, H. H. Halley's Bible Handbook: An Abbreviated Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1965, p. 635; 761-762
[3] THOMAS, Perry. Exploring Church History. Nashville, TN. World Publishing, 2005, p.16-17
[4] MOFFETT, Samuel. The History of Christianity in Asia: Beginnings to 1500. Vol 1.  Maryknoll, NY: Orbis Books, 1998, p. 288-314 & 471-475.
[5] JENKINS, Philip. The Lost History of Christianity. New York: Harper Collins Pub., 2008, p.36-37
[6] NEILL Stephen. A History of Christian Missions. Baltimore, Maryland: Penguin Books, 1964, p. 133-138.
[7] Disponível em: http://www.christianitytoday.com/ct/2009/march/24.52.html. Acesso em: 07 jan. 2014. 10:30:00
[8] HALLEY, H. H. Halley's Bible Handbook: An Abbreviated Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1965, p. 768
[9] Jerkins diz que: “As estatísticas de declínio são preocupantes. Olhe, por exemplo, a região da Asia Menor,  que tantas vezes foi mencionada ao longo do Novo Testamento, onde encontramos esses nomes históricos como Icônio, Éfeso, Galácia, Bitínia e as sete cidades do livro de Apocalipse. Ainda em 1050, a região teve 373 bispados, e os de habitantes eram virtualmente todos cristãos, esmagadoramente membros da Igreja Ortodoxa. Quatrocentos anos depois, essa proporção de cristãos havia caído para 10 ou 15 por cento da população, e podia ser encontrados apenas três bispos. De acordo com uma estimativa, o número de cristãos asiáticos caiu, entre 1200 e 1500, passando de 21 milhões para 3.4 milhões. No mesmo período, a proporção de cristãos que viviam na África e Ásia, combinado, caiu de 34 por cento para apenas 6 por cento. Na verdade, a contração fora da Europa foi, provavelmente, mais dramática do que mesmo estes números sugerem.” Ver em, JENKINS, Philip. The Lost History of Christianity. New York: Harper Collins Pub., 2008, p.23-24
[10] Em 1933, Laurence Edward Browne publicou a obra intitulada: The Eclipse of Christianity in Asia, onde apontou o declínio e morte da igreja tendo como motivação a perseguição. (BROWNE, L.E. The Eclipse of Christianity in Asia: From the Time of Muhammad till the Fourteenth Century. Cambridge: Cambridge University Press, 1933). Outro importante historiador, Vryonis, escreveu um livro em sobre o assunto em 1971. (VRYONIS, Spiro. The Decline of Medieval Hellenism in Asia Minor and the Process of Islamization: From the Eleventh through the Fifteenth Century. Berkeley: University of California Press, 1971)
[11] HOLME L. R. The Extinction of the Christian Churches in  North Africa. New York: B. Franklin, 1969, p.131-135
[12] A inquisição foi estabelecida na Espanha por autorização papal em 1480 para fazer frente ao problema da heresia neste país. Sob Tomás Torquemada (1420-98), 10.000 pessoas foram executadas, e sob Ximenes, quase 2.000 foram mortas. A Contra-Reforma começou em 1560 e terminou em 1648 com a conclusão da Guerra dos Trinta Anos entre católicos e protestantes. Ver em, LUEBKE, David. The Counter-Reformation: The Essential Readings Malden, MA: Blackwell Publishers, Ltd., 1999
[13]Larroyo diz o seguinte: "Os progressos da Reforma obrigaram a Igreja Católica a tomar enérgicas medidas; tal obra de defesa e reorganização se chama a Contrarreforma. A Contrarreforma lança mão de três meios poderosos: confirma o estatuto que criou a Companhia de Jesus (1540); organiza na Espanha a Inquisição (1542), e reúne o Concílio de Trento (1545-1563). O Fundador da Companhia de Jesus foi Inácio de Loyola (1491-1556), que concebeu uma Ordem de tipo militar a serviço da Santa Sé e que opôs à ideia de independência do Protestantismo a da autoridade da Igreja. O Concílio de Trento determina com todo o rigor os dogmas da Igreja Católica, resistindo à elasticidade das convicções protestante; preocupasse em reformar o clero, mediante decretos educativos; dita uma série de medidas práticas para evitar a perda de mais províncias, e fortalece o poder do Papa. O terceiro expediente empregado pela Contrarreforma para combater o Protestantismo foi a Inquisição". LARROYO, Francisco. História Geral da Pedagogia. São Paulo: Mestre Jou, 1970, p. 351 
[14] HALLEY, H. H. Halley's Bible Handbook: An Abbreviated Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1965, p. 635; 761-762
[15] MANDRYK  J. Operation World. Colorado Springs, CO: Biblica Publishing, 2010, p.916
[16].CANDELIN, Joseph. Persecution of Christians Today. In: Konrad-Adenauer-Stiftung (Hg.). Persecution of Christian Today: Christian Life in African, Asian, Near East and Latin American Countries. 16-24, 28 de outubro de 1999 em uma conferência em Berlim.

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22/11/2014

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As "loucuras" dos pregadores que pensam "fora da caixa"


Tempos difíceis os nossos, em que pregadores que "pensam fora da caixa" apresentam falsas boas-novas, isto é, um tipo de evangelho que os pecadores querem ouvir, e não o Evangelho, o qual os pecadores precisam ouvir, mesmo que não o apreciem. Não é por acaso que a Palavra de Deus alerta: "virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências" (2 Tm 4.3).

Há algum tempo, um pregador "radical" que gosta de fazer "loucuras gospel" cheirou uma Bíblia como se estivesse usando cocaína. E agora tem outro pregador "radical" — aquele que cita passagens bíblicas de modo "free style", empregando palavrões e expressões chulas — dizendo que a Igreja, a Noiva do Cordeiro, é uma vagabunda.

O leitor quer um verdadeiro exemplo de pregador que fala a verdade com contundência e agrada a Deus? Olhe para a pregação e a conduta de Estêvão (At 6-7). Ele foi apedrejado não por ter tido uma conduta "radical" ou ter usado palavras humanas "impactantes" (cf. 1 Co 2.1-5), e sim por ter dito a verdade das Escrituras com autoridade.

Há pregadores e escritores evangélicos que se orgulham de pregar e escrever "fora da caixa". Eles apresentam um outro evangelho — muito diferente do que Jesus e os seus apóstolos pregaram — e ainda acham que são perseguidos por causa disso... Ora, Deus se agrada mesmo é dos pregadores e escritores que, assim como Paulo, pregam e escrevem sem sair da maravilhosa caixa chamada Bíblia Sagrada, a Palavra de Deus (1 Co 11.23).

Ciro Sanches Zibordi

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21/11/2014

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PRELETORES COM DESTAQUE NACIONAL ESTARÃO NA 17ª CONSCIÊNCIA CRISTÃ


O 17º Encontro para a Consciência Cristã, que acontecerá de 12 a 17 de fevereiro de 2015 em Campina Grande (PB), já está com toda a sua programação definida. Serão ao todo mais de cem palestras e dez plenárias, destinadas a todas as faixas etárias e trabalhando diversos temas. Elas serão ministradas por alguns dos expoentes da fé cristã no Brasil, com base no tema geral do evento, “Fazei Tudo para a Glória de Deus”. 

Alguns desses preletores virão ao evento pela primeira vez. É o caso de Paulo Junior, pastor titular e fundador da Igreja Aliança do Calvário, em Franca, São Paulo. É conhecido por suas pregações cristocêntricas e por enfatizar as doutrinas da graça. Além de ministrar em várias igrejas pelo país, Paulo também realiza um ministério virtual. Muitas de suas pregações estão disponíveis no seu site, o www.defesadoevangelho.com.br. O nome de Paulo Júnior se soma ao de muitos que, pela sua visão de resgate do genuíno Evangelho de Cristo, vem contribuir para a edificação do Corpo de Cristo. 

O casal Orebe e Simone Quaresma também é estreante na Consciência Cristã. Orebe é pastor da Igreja Presbiteriana de Ponta D’Areia, em Niterói, Rio de Janeiro. Formado em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte, exerce o pastorado há 15 anos. Graduado em letras clássicas pela UFRJ, fez sua especialização e mestrado em Língua e Literatura Latina. Já Simone, esposa de Orebe há 25 anos, é colaboradora do portal Mulheres Piedosas, conhecido por defender os padrões bíblicos para a feminilidade. Simone ainda trabalha com aconselhamento e estudos bíblicos com as mulheres da Congregação. 

Além deles, nomes bem conhecidos do encontro retornarão. É o caso de Hernandes Dias Lopes, que pregará na noite de abertura do evento pelo décimo segundo ano consecutivo. O Reverendo Hernandes é diretor executivo do projeto Luz para o Caminho – LPC, com sede em Campinas – SP; apresenta o programa Verdade e Vida na emissora de Televisão Rede TV; é bacharel em Teologia e tem doutorado em Ministério no Reformed Theological Seminary, em Jackson, Mississippi, nos Estados Unidos. 

Autor de mais de 100 obras, ele busca através de seu ministério, levar a igreja a se tornar mais autêntica, piedosa, fiel a Deus e comprometida com as verdades da sua palavra. Entre os livros de Hernandes, destacam-se: Avivamento Urgente; Como Passar Pelo Vale Das Provas; Como Transformar o sofrimento em triunfo; A Pedagogia do Milagre de Jesus, etc. Disponíveis em: hernandesdiaslopes.com.br. 

Outro preletor conhecido do evento é Renato Vargens, Pastor e conferencista, que já pregou o evangelho em países da América Latina, África e Europa, além de plantador de Igrejas e escritor, com quase 20 livros publicados em língua portuguesa e 1 em língua espanhola. É também colunista e articulista de revistas, jornais e diversos sites protestantes, editor do site www.renatovargens.com.bre pastor presidente da Igreja Cristã da Aliança em Niterói. 

O 17º Encontro para a Consciência Cristã terá também a participação de outros preletores nacionais e internacionais, a exemplo de Josh McDowell e Justin Peters. O evento contará ainda com a participação especial do Grupo Logos, que ministrará durante as plenárias noturnas do encontro a partir do sábado, dia 14/02. Toda a programação da 17ª Consciência Cristã já está disponível no site oficial do evento.

A inscrição no evento é gratuita, e pode ser feita no site: www.conscienciacrista.org.br 

Matéria originalmente publicada no Gospel Prime ( Aqui


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19/11/2014

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Ensaios sobre a Igreja na pós-modernidade: definições

Por Jonas Ayres

Pós-modernidade. Eis um termo que significa muito, que possui muitas definições e literatura numa amplitude cada vez mais surpreendente. Muitos filósofos, sociólogos e estudiosos da área utilizam o termo pós-moderno, outros preferem o uso do termo hipermoderno. Justamente por estarmos vivendo neste tempo, tão carente de absolutos, não é de se estranhar a dificuldade de utilização do mesmo termo bem como o estado de desespero que muitas vezes toma conta das pessoas pela simples menção da expressão “pós-moderno”.

Pós-modernismo é tanto uma noção histórica e cronológica quanto uma idéia filosófica. Analisando sob a ótica histórica, pós-modernismo se refere à modernidade, devido este tempo preceder o outro bem como a rejeição do pós-modernismo por alguns conceitos modernos. Sob o aspecto cronológico, muitos definem que o pós-modernismo é o retrato de uma era que já começou, e sob alguns aspectos já substituiu a modernidade. Por fim, na concepção filosófica e psicológica trata-se de um tempo de grande “relativismo cultural sobre coisas tais como realidade, verdade, razão, valor, significado lingüístico, o eu e outras idéias” (MORELAND & CRAIG, 2005, p.186).

Para a igreja, o pós-modernismo representa um desafio. Um bom desafio conforme as palavras de Ferreira e Myatt (2007, p.4):

Para muitos, a situação pós-moderna é uma ocasião de desespero. Mas é exatamente nos momentos históricos que se mostram mais difíceis que a fé cristã se levanta, trazendo nova esperança. E, nestes momentos, a tarefa teológica se torna crítica para proclamar e defender a fé, e para nortear o povo de Deus na travessia dos campos de batalha que permanecem à frente. Nosso desafio é fazer uma teologia que coloque toda a riqueza da fé evangélica histórica desde a igreja antiga até a atual, em contato com os problemas de um mundo pós-moderno e globalizado, trazendo luz, vida e esperança para um povo cuja existência carece do significado que somente se encontra no Senhor.

Para os estudiosos da área, fica o desafio de definir o que significa este tempo. Esperandio (2007, p.41) lança uma opinião sobre este tempo que confere com o pensar de muitos:

Vê-se, pois, que as teorizações sobre pós-modernidade/pós-modernismo vão se construindo simultaneamente ao próprio aparecimento dessa nova configuração do social, que os teóricos têm dificuldade em definir: seria então uma nova forma de ser, de pensar e viver, mas ainda dentro da modernidade, ou poderia esse novo modo de existência (com implicações visíveis nos mais variados campos do saber) ser categorizado como um outro período histórico, o pós-moderno?

Por ser uma época em processo de definição, existe certa controvérsia no meio acadêmico quanto ao emprego correto de “rótulo” que melhor determine este tempo. Um filósofo muito influente que afirma que o pós-modernismo já “passou” é Gilles Lipovetsky. Na verdade, Lipovetsky defende que o pós-modernismo sequer existiu; este filósofo francês defende que:

O neologismo pós-moderno tinha um mérito: salientar uma mudança de direção, uma reorganização em profundidade do modo de funcionamento social e cultural das sociedades democráticas avançadas. Rápida expansão do consumo e da comunicação de massa; enfraquecimento das normas autoritárias e disciplinares; surto de individualização; consagração do hedonismo e do psicologismo; perda da fé no futuro revolucionário; descontentamento com as paixões políticas e as militâncias – era mesmo preciso dar um nome à enorme transformação que se desenrolava no palco das sociedades abastadas, livres do peso das grandes utopias futuristas da primeira modernidade. (LIPOVETSKY, 2004, p.52).

Dando a explicação do porque do uso do termo “pós”, ele afirma que que o que vivemos é na verdade o tempo do “hiper”:

A cultura hipermoderna se caracteriza pelo enfraquecimento do poder regulador das instituições coletivas e pela autonomização correlativa dos atores sociais em face das imposições de grupo, sejam da família, sejam da religião, sejam dos partidos políticos, sejam das culturas de classe. (…). Testemunho disso é a maré montante de sintomas psicossomáticos, de distúrbios compulsivos, de depressões, de ansiedades, de tentativas de suicídio, para nem falar do crescente sentimento de insuficiência e autodepreciação. (…). À desregulação institucional generalizada correspondem as perturbações do estado de ânimo, a crescente desorganização das personalidades, a multiplicação de distúrbios psicológicos e de discursos queixosos. (LIPOVETSKY, 2004, p.83-84).

Doutra forma, renomados filósofos cristãos como Norman L. Geisler, William Lane Craig, J.P. Moreland e Peter Kreeft defendem que o que vigora ainda é o pós-modernismo.

Partindo deste pressuposto, é preciso estabelecer meios de comunicar e praticar o cristianismo neste horizonte, e para que a proclamação do Evangelho seja eficaz é preciso conhecer esta cosmovisão, não fugir dela, mas de modo algum criar alianças e contextualizações. Morley (2005, p.200) disse:

Quanto mais compreendermos as idéias das pessoas, melhor poderemos comunicar a verdade das Escrituras e do Evangelho para elas. Por isso é que estudamos sobre cultos e religiões, e daí a grande importância de que os missionários estejam muito bem preparados entenderem as culturas nas quais vivem. Mas poucos cristãos do ocidente se esforçam o suficiente para compreender a cultura onde eles mesmos vivem!

Outro fato importante a se destacar é que não existe consonância quanto ao inicio da era pós-moderna; o que existe é o consenso que alguns nomes influenciaram muito a forma de pensar do homem, que mudou sua atitude severamente moldando assim a sociedade atual. Existem fatores e nomes que acenderam o “estopim” do pós-modernismo.

Após o fracasso da crença numa “perfeição humana” e na sua eventual bondade, vendo o século XX ser manchado de sangue, mancha esta das duas grandes guerras mundiais, uma guerra fria, estados governados por regimes cruéis, ditadores e totalitaristas, inúmeras guerras civis, o vergonhoso Holocausto efetuado pelos nazistas (como uma flecha no coração modernista europeu), tensões na frança sob o regime do presidente Charles de Gaulle em 1968 (onde os jovens bradaram nas ruas o termo “é proibido proibir”) e profundas mudanças no regime marxista, mudanças no pensamento quanto a perfeição do modernismo foram minando tal época.

Nomes como Michel Foucalt, Jacques Derrida, Richard Rorty e Jean-François Lyotard passaram a por em xeque a concepção modernista.

Foucault rejeitava a idéia que o conhecimento é algo intrinsecamente neutro. Para ele a ciência e conhecimento são instrumentos de opressão usados pelos que os possuem cuja finalidade é obter poder e domínio sobre as massas. Em síntese, no pensamento de Foucault, toda afirmação de conhecimento é na verdade um ato de poder.

Derrida apregoa que os dicionários, por exemplo, dão a falsa impressão que as palavras possuem definições e significados absolutos, inalteráveis. Para ele o significado das coisas/palavras está ligado às experiências pessoais de cada indivíduo, e como tais experiências mudam de forma constante, os significados também mudam. Agindo assim, Derrira continuou a “desconstruir” conceitos tradicionais firmados no pensamento humano. De certa forma, a conseqüência macro do seu pensamento em nossos dias é o relativismo, ou seja, tudo é relativizado por cada ser e a verdade e o absoluto não passam de meros conceitos individuais. Sobre Derrida, Geisler diz (2002, p. 248):

É considerado um “filósofo” francês contemporâneo, apesar de alguns questionarem se ele é um verdadeiro filósofo. É pai de um movimento conhecido como “desconstrutivismo”, ainda que pessoalmente ele rejeite o significado popular do termo. O movimento também é chamado “pós-modernismo”, apesar de Derrida também não usar o termo para descrever sua visão.

Rorty por sua vez, com seu pensamento neo-pragmático afirma que a idéia da verdade é apenas um mito. Em seu modo de pensar a “verdade” é aquilo que sobrevive às objeções dentro do contexto cultural ao que é apresentado, assim, o que é verdade continua sendo relativizado, não pelo individuo, mas pelo ambiente sócio-cultural. Para Rorty, devemos abandonar a busca pela verdade e nos contentarmos simplesmente com a interpretação.

Por fim, Lyotard apregoa um pensamento em favor da diversidade e de considerações meramente pragmáticas.

Tal ambiente cria uma aparente sensação de que tudo está mais belo e livre e que o homem pós-moderno é de fato o mais realizado de todos os tempos. Poucos são francos em admitir seu verdadeiro sentimento de vazio e confusão. Nas palavras de Miranda (2006, p.264):

[as pessoas] sentem-se diariamente rodeadas pelo diferente, pelo desconhecido, pelo estranho. Ninguém está completamente à vontade na sociedade pós-moderna. Estamos todos contaminados por uma epidemia silenciosa de insegurança e de angústia. A oferta generosa e abundante de “definições da realidade”, à semelhança de um shopping bem sortido, garante ao individuo maior espaço para sua liberdade, mas, simultaneamente, descarrega sobre ele o difícil ônus de construir sua própria identidade sem lhe oferecer referências sólidas, objetivos comprovados, ideais aceitos pela sociedade que, outrora, lhes garantia honorabilidade e, sobretudo, credibilidade.

Por mais que a análise do pensamento desses pensadores tenha sido superficial, é possível identificar que os conceitos relativistas e pluralistas que permeiam o pensamento do homem pós-moderno têm como fonte tais filosofias. Relativismo, pluralismo e a rejeição da verdade são marcas deste tempo, as quais McGrath refuta (2007, p.168):

Contudo, a lenta saída da modernidade, ainda que inexorável, não significa que o evangelicalismo precise assumir a ordem pós-moderna. Com efeito, o evangelicalismo provê um ponto de observação fundamental de onde criticar aspectos da visão de mundo pós-moderna, não menos sua aparente reação exagerada à ênfase do Iluminismo na verdade. A verdade permanece um assunto de importância apaixonante para o evangelicalismo, mesmo que exista uma pressão cultural bastante forte na sociedade ocidental para conformar com sua ótica prevalecente de “meu ponto de vista é tão bom quanto o seu”.

Mas afinal, o que significa para a humanidade o passar da era moderna para a pós-moderna. Conforme Lipovetsky (2007, p.23) disse:

A pós-modernidade representa um momento histórico preciso em que todos os freios institucionais que se opunham à emancipação individual se esboaram e desapareceram, dando lugar à manifestação dos desejos subjetivos da realização individual, do amor-próprio. As grandes estruturas socializantes perdem a autoridade, as grandes ideologias já não estão mais em expansão, os projetos históricos não mobilizam mais, o âmbito social não é mais que o prolongamento do privado – instala-se a era do vazio, mas “sem tragédia e sem apocalipse”.

Eis o cenário armado para a introdução de linhas teológico-filosóficas no cristianismo histórico que são verdadeiros cavalos-de-tróia. Na ansiedade por ter um cristianismo mais amigável ao pensamento pós-moderno, o movimento da Igreja Emergente adentrou o cristianismo hodierno como tal cavalo-de-tróia.

OUTROS TEXTOS DA SÉRIE

1. Ensaios sobre a Igreja na pós-modernidade: introdução

2. Ensaios sobre a Igreja na pós-modernidade: definições



BIBLIOGRAFIA

ESPERANDIO, Mary Rute Gomes. Para entender pós-modernidade. São Leopoldo: Sinodal, 2007.

FERREIRA, Franklin & MYATT, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Edições Vida Nova, 2007.

MORELAND, J.P. & CRAIG, William Lane. Filosofia e cosmovisão cristã. São Paulo: Edições Vida Nova, 2005.

LIPOVETSKY, Gilles. Tempos hipermodernos. São Paulo: Editora Barcarolla, 2004.

MORLEY, Brian K. in MACARTHUR, John. Pense biblicamente: recuperando a visão cristã de mundo. São Paulo: Hagnos, 2005.

GEISLER, Norman. Enciclopédia de apologética: respostas aos críticos da fé cristã. São Paulo: Editora Vida, 2002.

MIRANDA, Mário de França. A igreja numa sociedade fragmentada. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

MCGRATH, Alister. Paixão pela verdade: a coerência intelectual do evangelicalismo. São Paulo: Shedd Edições, 2007.

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Texto do nosso querido pastor Jonas Ayres no Púlpito Cristão, via NAPEC

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