
Por Leonardo Gonçalves
Hoje vi alguém afirmar que "o cristianismo é uma aposta sem riscos". Não sei quem é o autor desta frase, mas sei que a visão do cristianismo como uma aposta remonta ao filósofo Blaise Pascal. Partindo da premissa de que é impossível “provar” que Deus existe, Pascal conclui que, de um jeito ou de outro, todos nós jogamos dados com Deus, mesmo ele não jogando dados com o Universo.
Impossível não concordar com Pascal. Infelizmente (ou não), ser cristão é uma aposta. E não só uma aposta, mas um penhor: Você entrega sua vida aqui, para receber algo melhor no além.
É ainda um salto no escuro, como disse Kierkgaard. Nos aventuramos a seguir um Deus que não vemos, e a prova da sua existência e da nossa esperança se reduz em fé (Hb 11.1).
Houve um tempo em que eu pregava um cristianismo acima de qualquer dúvida. Debatia com ateus, explorava os argumentos de Anselmo e Aquino, dissecava livros do Geisler e do Craig, e assim vendia a idéia de um cristianismo acima de qualquer suspeita. Eu era tolo e não sabia...
Hoje, alguns anos mais tarde, descobri que a dúvida é parte de um "pacote" chamado cristianismo. Há lacunas em nosso conhecimento que jamais serão preenchidas. Seguir a Cristo é apostar que tudo o que Ele disse é verdade.
As almas sinceras hão de admitir: Não temos todas as respostas, embora tenhamos respostas suficientes. Não possuímos toda a fé, embora Cristo nos aperfeiçoe na fraqueza. Não sabemos tudo sobre Deus, mas cremos que ele sabe tudo sobre nós.
As vezes me pergunto: Onde foi que eu andei este tempo todo? E a resposta que encontro é a mesma: Longe, muito longe do Senhor. Com a cabeça cheia de argumentos, mas com o coração oco. Mas eu tinha certezas! Agora, ao contrário daqueles dias, tenho muitas dúvidas. Não entendo porque tem tanta gente boa se arrebentando, se machucando; e tanto hipócrita se dando bem.
Os versos assimétricos do poeta Renato parecem refletir a verdade com uma força indizível: "É tão estranho... Os bons morrem jovens. Assim parece ser." Quem é bom quase sempre se dá mau. O mundo é injusto as vezes, e eu não sei porquê.
Porém, apesar de todo esse existencialismo, das repentinas (e passageiras) incertezas, eu nunca me senti tão perto de Deus! É um paradoxo, eu sei, mas tal como as trevas evidenciam a luz por contraste, também a fé se fortalece na dúvida. E eu poderia te dizer qualquer outra coisa, mas isso não seria sincero. Poranto, o que digo é: Você deve crer em Deus, mesmo em face deste mundo injusto, e confiar na Palavra dele de que um dia a justiça reinará.
Minhas dúvidas nunca acabam. Ontem duvidei, por um instante desesperador chorei. Eu quis entender e não pude (e talvez jamais possa). "Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos".
Mas há um fato irrefutável. Deus me deu uma certeza que nenhum manual de doutrina cristã pode dar. É quando "O Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus". Ah... certeza insofismável! Em um instante a nuvem escura se dissipa e a paz novamente reina (ainda que momentânea). "Paz... paz... Cuán dulce paz!"
"E Jesus disse-lhe: Se tu podes crer; tudo é possível ao que crê. E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade."
***
Dedico esta postagem ao amigo Danilo Fernandes, editor do blog Genizah, companheiro de milícia, e de lágrimas.












10 comentários:
Gostei. Era isto que o apostolo paulo falava quando disse, "É assim: quando eu era criança, falava, pensava, raciocinava como uma criança. Mas quando me tornei adulto deixei as coisas de criança." (ICo 13.11)A fé é um eterno questiona-se e ainda assim acreditar. Certeza plena não é fé, é fanatismo fundamentalista!
Excelente Post !!!
Me identifiquei muito com esse texto por passar momentos semelhantes e pensamentos também...
Mas quando o Espírito verdadeiro de Deus toca em nosso coração a impressão que tenho é que tudo se explica e testifica.
Gostaria de parabenizar o irmão pelo Blog e de saber qual é a sua opinião sobre a Igreja Adventista do Sétimo Dia.
Grande abraço
Oh Mano! Tu quer me arrancar mais choro!
Vamos rir porque amanhã estaremos os dois tomando aquele drink celestial com Jesus (não é teologia do botequim não). É segurança da Salvação!
Leo:
fiquei feliz em saber que você já deu uma passeada em filósofos, e cristãos apaixonados como Pascal e Kierkgaard, cujo modo de crer em muito me infruenciaram, são homens sábios que não usarão de sua sabedoria para provar que Deus existe, pois o esperimentaram no paradoxo da fé sem apoio, suspensa sobre o nada. A fé vem do coração, e é dada por Deus. Muito edificante este artigo.
MINHA CRENÇA NO CRISTIANISMO E EM SUAS INSTITUIÇÕES DEIXARAM DE EXISTIR QUANDO PERCEBI QUE ELAS ERAM MERAMENTES HUMANAS, FEITA POR GENTE QUE ERRA, GENTE QUE ACERTA, GENTE QUE É GENTE.
PERCEBI ENTÃO QUE MINHA CRENÇA HAVIA SIDO ABALADA; TUDO QUE CRESCI ACREDITANDO JÁ NÃO ERA TÃO REAL QUANTO EU PENSAVA.
AH! MINHA CRENÇA TÃO DOCE CRENÇA...DESABOU, SE ACABOU...
DESCOBRI QUE NÃO PRECISAVA DA CRENÇA, PRECISAVA DA FÉ.
DESCOBRI QUE AO CONTRÁRIO DE KIERKGAARD MINHA FÉ NÃO ERA UM SALTO NO ESCURO, PORQUE EU NÃO CRIA MAIS NA INSTUIÇÃO E EM SEUS MEMBROS,MAS CRIA EM CRISTO.
MINHA FÉ DIFERENTEMENTE DE MINHA CRENÇA NÃO SE BASEA NO QUE É HUMANO E SIM NO QUE É DIVINO.
PARA MIM, MINHA FÉ NÃO PRECISA DE EXPLICAÇÕES!
NATANAEL TUSSINI
SOLA GRATIA
Gloria Deus, meu mano.
Fico feliz com o crescimento da sua confiança em Deus, mesmo em meio aos maiores paradoxos da vida e da fé.
Como é bom encontrar gente que pensa como gente... que pensa como a gente. Gente que escreve pra gente e não pra crente. Desculpe o trocadilho... a essa hora é o máximo que consigo (rs). Te convido a ler um texto que escrevi nessa mesma linha chamado "Caçadores de Profetas" em www.danyeroger.blogspot.com
Parabéns pelo post.
" É quando "O Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus"."
DEUS é sempre tão verdadeiro, tão fiel; como pode se achegar a falíveis mortas e ainda testificar! Que grande AMOR é esse!
Só quero dizer: Obrigado irmão, por ter sido o canal utilizado por Deus, pra me trazer respostas às angustias com as quais dormir a noite passada.
Josué
Caro amigo Leo
Um dia, eu estava ouvindo um simples e humilde homem do campo,pregando sobre a vida de Cristo. Encontrava-me numa letargia daquelas, pois essa tecla mecanicamente batida e rebatida de que Cristo morreu para nos salvar, não me empolgava tanto naquele momento.
Para surpresa minha, o pregador lá no final de seu sermão saiu-se com uma pérola do existencialismo, que eu jamais esquecerei. Eu acho que quem estava cochilando naquele momento, acordou, quando ele disse com ênfase e veemência:
"Irmãos, Cristo correu o risco de nunca mais voltar!"
O seu inspirado ensaio me trouxe a lembrança o emblemático desfecho do sermão do humilde pregador (numa igrejinha de interior).
Parabenizo-lhe pelo belo e profundo texto.
Levi B. Santos
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