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01/10 por: Antognoni Misael 7 Comentários

Poesia e Espiritualidade: o legado Musical de Jayrinho

Por Antognoni Misael

Jairo Trench Gonçalves, conhecido no meio evangélico como Jayrinho, foi um jovem talento musical das décadas de 70 e 80. Considerado como um dos grandes referenciais da música evangélica brasileira por muitos cristãos da avant garde musical. Sem a menor sombra de dúvida, quem gosta e se identifica com o trabalho do Grupo Logos com certeza se vislumbrará com as canções do artista que formou, ao lado de Paulo Cezar, no Grupo Elo.

Jairo foi o único filho homem em meio a quatro meninas. Filho de português, viveu em São Paulo e teve uma vida nobre, confortável, devido a estabilidade dos pais. Quando conheceu a Cristo nos idos de 1970, apressou-se em servir a Deus de forma exclusiva partindo para o Instituto Bíblico Palavra da Vida onde se preocupou em estudar teologia. Ao completar os estudos em 1974, conheceu Hélia, com quem se casou no início de 1975, em São Paulo.

O que era ser um jovem cristão na década de 70? Nada fácil. Enquanto o entretenimento era sacudido pelo Rock in Roll de bandas como The Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones, e tantos outros artistas e segmentos cujas mensagens eram contrárias aos princípios bíblicos, a igreja evangélica no Brasil dava ainda passos modestos tanto em questões culturais quanto na musicalidade própria – criação de melodias e elaboração de arranjos musicais de qualidade.

Jayrinho contribuiu bastante para formatação e inovação na música crista. A inovação aconteceu quando um grupo de oito pessoas escolhidas pelo maestro norte-americano Dick Torrans, missionário do Palavra da Vida, quebraram a tradição musical européia (“escandalizando” no bom sentido) e passaram a compor canções próprias – Jayrinho compôs “Nos montes eu vou, com Cristo eu estou, nos vales campinas, com meu Salvador…, etc.” e outras .

Como desbravar era uma missão desafiadora, Jayrinho junto com seu grupo, aprovados e capacitados por Deus, passaram a se apresentar nas praças, ginásios de esporte, pequenas e grandes igrejas, indo, indo, indo e sem nunca deixar fugir o sorriso dos lábios e o comprometimento com o Reino. É válido ressaltar que neste maravilhoso grupo também participavam o Paulo Cezar, juntamente com a Nilma, sua esposa, e Nancy, esposa do maestro Dick, também produtor e arranjador musical do grupo.

Jayrinho era um líder, idealizador, um sonhador “ambicioso”.  Seu desejo era ampliar os espaços, enriquecer mais a música cristã e conhecer novos horizontes. Sensível e de grande musicalidade, era capaz de formular ideias, compor poesias simples, porém cheia de sofisticação. Relatou o músico Ivan Cláudio (parceiro de grupo ao lado de Jayrinho e Paulão) que este passava horas com seu violão, às vezes diante do piano cantarolando até que a melodia fluísse. Jayrinho utilizou de todos os recursos que possuía (instrumentos musicais, sintetizadores, etc.) perseguindo sempre a música de qualidade. Era um perfeccionista!

Num primeiro momento preferiu não ferir a tradição quanto a certos costumes da música, como a utilização da bateria (um pepino indigesto por parte da igreja) –  enfrentada pelo grupo  Vencedores Por Cristo, que naquela mesma época introduziu vários instrumentos censurados pela comunidade evangélica brasileira. Para comprovar isso basta ouvir o primeiro disco gravado por Jayrinho “Calmo, Sereno e Tranqüilo” – este tinha apenas o uso do violão e, quando muito, um contrabaixo.

Ao final do ano de 1975 foi formado o ‘Grupo Elo’, e a partir daí Jairo montou todo um aparato para gravação e impressão, que funcionava no mesmo prédio do Mapa Fiscal Editora, de propriedade de seu pai em Atibaia-SP. Enfrentando as censuras instrumentistas, comporam um arsenal de  discos belíssimos:“Nova Jerusalém”, “Ouvi dizer…”, “Um dia”, “Calmo, sereno e tranqüilo”, “Nova Canção”, e em 2008, “O ensaio”, que é um registro único de momentos de ensaios, elaboração de arranjos e composições do Elo.

As músicas de Jayrinho evidenciam melodias belíssimas, bem definidas; particularmente noto a verve das baladas de MacCartney, o blues, o Country, o jazz e a bossa. Certamente nele foi respingado um pouco de cada influencia dos sons nacionais e de fora. As letras eram igualmente belas, simples, humanas, profundas. Escutem a simplicidade da canção “Um Dia” e “Ao sentir”, escritas por ele e note um pouco de sua forma de ver o mundo, Cristo, e a vida.

Tudo estava à pleno vapor, quando em 1981 Jayrinho veio a falecer em um acidente de automóvel na estrada de Atibaia-SP. Morreram ele, sua esposa Hélia e seu filho mais novo, ainda bebê, André – Cristo os tomou para Si. A sua alegria, bom humor, espiritualidade, ficaram marcadas para nós como lembrança nas melodias e letras que nos legou. No mesmo ano de sua morte, o Grupo Elo, que tinha alcançado a venda de mais de 800.000 Lps e a Revista Elo, que tinha chegado a mais de 28.000 assinantes abrangendo o Brasil, Angola, Portugal, Moçambique e Espanha, se desfizeram.

Resta-nos hoje só recontar a história deste que foi um dos maiores compositores e cantores da música cristã moderna. Meu desejo é que as gerações presentes, os grupos de louvor, os músicos e ministros da música, tenham a oportunidade e prazer de conhecê-lo assim como eu tive.

Louvo a Deus pela música cristã de qualidade!!

***
SOUZA, de Salvador. História da Música Evangélica no Brasil. Clube dos Autores, 1ª edição. Brasília-DF, 2011.
O projeto Nossa Arte Cristã é uma parceria do Púlpito Cristão com o Arte de Chocar.

7 respostas para “Poesia e Espiritualidade: o legado Musical de Jayrinho”

  1. Nena disse:

    Que época de ouro! Grupo Elo, Vencedores por Cristo e seus herdeiros… Graças a Deus, são minhas referências musicais; fazem parte da minha história; me influenciam até hoje!
    O período do final dos anos 70 e anos 80 foi rico no que se refere a musicalidade dos evangélicos, pois as composições eram verdadeiras obras de arte com conteúdo bíblico e espiritualidade sadia. Que tempos aqueles! E eu vivi isso e me emociono ao ouvir todas aquelas músicas que tanto me fortaleceram e me alegraram a alma. Ainda tenho a coleção de vários “LPs”, em vinil. Um tesouro que guardo com carinho.
    Me entristece quando vejo a falta de sensibilidade de muitos que se dizem “ministros de louvor” e não correspondem ao mínimo no

  2. Nena disse:

    Gente meu comentário está incompleto acima!
    Só gostaria de concluir dizendo que fui contemporânea desses pioneiros de grupos de louvor que nos deixaram um legado de compromisso com o Deus que inspira a arte para o louvor da glória Dele.

  3. Paulo Sales disse:

    Misael, segundo seu texto os caras transcrediram na epoca deles no que diz respeito a musica cristã, inserções de equipamentos etc. Hoje os caras transcridem em relalão as musicas cristã e inserem costumes e formas com rejeição equivalente.
    Daqui 30 anos, alguém por gosto pessoal ou convicção equivalente a sau, vai estar reproduzindo um texto iqual o seu?

    • Antognoni Misael disse:

      Acho q não são formas de rejeição equivalente nao. O contexto era outro. Quem censurava fazia por tradição, desconhecimento bíblico. Era proporcionalmente inverso ao que hoje ocorre.

      COmo eu vejo o quadro: ANTES -> Música boa e crítica por ignorância HOJE -> Música ruim e crítica a ignorância!

  4. Nena disse:

    É verdade! Hoje fazem música de baixa qualidade e são ignorantes o suficiente para se perceberem perante a crítica. Há raríssimas exceções, é claro , mas de modo geral, a qualidade da música evangélica hoje é muito baixa.

  5. Adilson disse:

    {…”Jairo foi o único filho homem em meio a quatro meninas. Filho de português, viveu em São Paulo e teve uma vida nobre, confortável,…”
    “…passava horas com seu violão, às vezes diante do piano cantarolando até que a melodia fluísse. Jayrinho utilizou de todos os recursos que possuía (instrumentos musicais, sintetizadores, etc.)…”}

    —> Humm! será que tem semelhança com este texto biblico??:

    Ai dos que dormem em camas de marfim, e se estendem sobre os seus leitos, e comem os cordeiros do rebanho, e os bezerros do meio do curral.

    Que cantam ao som da viola, e inventam para si instrumentos musicais, assim como Davi;
    Amós 6:4-5

    - Misael, acho que a ignorância permanece.

  6. Paulo César_PCB disse:

    Ótimo post !

    Quem busca qualidade nas musicas e em outras formas de expressão artística e cultural, sabe dar valor às músicas e composições do Grupo ELO/Logos, inclusive também de outros grupos e cantores da mesma época. Mesmo com restrições técnicas, comerciais ( distribuição/divulgação) o objetivo era alcançado. Pregar musicalmente a grandeza de Deus e a salvação em Jesus Cristo.

    Não há como contestar que hoje, com muito mais recursos há uma “pobreza” de criação de letras, arranjos e compromisso único de pregar somente o verdadeiro evangelho.

    Falta qualidade e objetividade para que se leve pesoas a conhecerem a verdade sobre o Reino de Deus.Vivemos uma mediocridade geral, tanto no mundo como no meio evangélico, infelizmente.

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