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24/05 por: Antognoni Misael 0 Comentários.

Deus, o diabo e o mundo das artes

arte1Por Maurício Zágari

Minha esposa ganhou convites para o espetáculo de patinação “Disney on Ice”, em que diversos personagens da Disney dançam e deslizam em belas coreografias sobre o gelo. Nunca tinha assistido a nada do gênero, não fazia ideia de como era. Por isso, levamos nossa filha ao Maracanãzinho. Lá estava eu, com minha filhinha de 2 anos no colo, quando, no meio do show, entraram em cena todos os bruxos e bruxas dos desenhos da Disney, numa grande e animada coreografia. Confesso que me assustei e me preocupei. Deveria eu deixar minha doce e inocente filha ficar vendo feiticeiras e feiticeiros num cativante espetáculo de som e luz? Será que aquilo despertaria seu fascínio pelo assunto? De algum modo aquilo a levaria a se tornar uma satanista, uma adepta da bruxaria, uma depravada, uma apóstata ou mesmo uma cristã mística que dedica mais tempo ao diabo do que a Deus? Deveria eu me levantar e ir embora? A dúvida me consumia, quando entraram em cena Mickey, Minnie, Pateta e Pato Donald e, em meio a muita algazarra, expulsaram todos os bruxos de cena, enquanto a música celebrava a vitória do bem sobre o mal e a criançada ia ao delírio com a derrota das forças malignas. Sussurrei no ouvido de minha filhinha: “Tá vendo, filha, Jesus deu um jeito de fazer os maus irem embora”. E ela começou a gritar, animada: “Sai, bruxa má!”. Esse episódio me fez refletir muito sobre qual é a diferença entre mencionar algo que vai contra os valores do Evangelho e defender esse algo. Até que ponto discorrer sobre um pecado estimula a prática desse pecado?

Minha conclusão é que entre mencionar e defender a diferença é monstruosa. No entanto, muitos de nós, cristãos, não conseguimos enxergar essa fronteira. Uma das áreas em que isso fica mais claro são as artes, haja vista as antigas polêmicas que envolvem questões como “música gospel X música do mundo”, “crente pode ir ao cinema?” etc. Sei que essa é uma discussão sem fim, que desperta paixões e defesas arraigadas, impulsivas e até agressivas (por favor, seja gentil ao discordar de minhas posições nos comentários…), sei que tem gente que considera a Disney um império satânico (graças a uma série de fitas de videocassete que um pastor com intenções que só cabe a Deus julgar lançou anos atrás, com algumas verdades sobre mensagens subliminares mas também com muitos exageros). Todavia, gostaria de compartilhar alguns pensamentos sobre o assunto.

arte2Sempre defendi que não devemos deixar nossos filhos expostos de peito aberto a literaturas e filmes como os das sagas “Harry Potter” e “Crepúsculo” (perceba: eu disse “de peito aberto” e não que devemos proibi-los totalmente de ler tais obras). E explico por que precisamos nos acautelar com esse tipo de literatura: durante séculos, toda e qualquer representação de bruxos era sempre aquilo que a bruxaria de fato é: má. A bruxa da Branca de Neve, a bruxa da Bela Adormecida, a bruxa dos desenhos do Pica-Pau, a bruxa de Monteiro Lobato… todas as bruxas, enfim, sempre foram retratadas como alguém que joga no time do mal. Suas histórias nos estimulavam a fugir da bruxaria e a repudiá-la. Harry Potter não. Na série do bruxinho bonzinho, o bruxinho é… bonzinho. Essa é exatamente a questão. Ele é o herói. Ele é o tal. Ele é bacana. Ele é quem nossos adolescentes querem ser quando crescer. Eis aí o problema: o bruxo é o cara.

Nas histórias da saga “Crepúsculo” acontece o mesmo. Embora vampiros, ao contrário de bruxos, sejam seres fictícios, nessa saga eles são lindos, sedutores, charmosos, os galãs por quem as meninas suspiram. Mas os personagens vampiros são e sempre foram criaturas arte3das trevas. Se você lhes aponta a cruz de Cristo o que eles fazem? A abraçam? Ou fogem? Então seres das trevas que fogem da cruz passaram a ser glorificados pela ficção. Até bem pouco tempo atrás os vampiros dos livros e dos filmes eram sempre tenebrosos, horripilantes, assustadores. “Crepúsculo” mudou isso e tornou desejável ser ou admirar alguém que foge da cruz de Jesus. É tudo uma questão da mensagem que é transmitida.

Então vemos que um pano de fundo belo pode ser o cenário para a transmissão de valores bem ruins do ponto de vista bíblico. Por exemplo: já expus em posts como “Cristão deve ouvir música do mundo?” e “O que é boa música evangélica?” que não vejo base bíblica para proibir cristãos de ouvir músicas seculares cujas letras não sejam antibíblicas. Mas isso deve ser sempre com cautela, analisando cuidadosamente e à luz das Escrituras aquilo que se consome. Para fazer um teste sobre isso decidi, por curiosidade pessoal, analisar letras de músicas de um artista que não é do meu gosto musical (e que, por isso, praticamente desconhecia seu repertório), mas que foi indicado por um homem de Deus a quem respeito muito e que gosta dele. Por essa razão decidi analisar as letras de suas canções e encontrei, em meio a muitas músicas inofensivas e bonitas aos ouvidos, também muitas que visivelmente contrariam o Evangelho e seus valores.

arte4Minha cobaia foi Ivan Lins (que fique claro que nada aqui versa sobre a pessoa desse artista, apenas sobre as letras das canções que interpreta). Fiquei surpreso e assustado com a quantidade de valores antibíblicos em muitas de suas letras. “Vitoriosa”, “Porta entreaberta”, “Dinorah, Dinorah” e “Lembra de mim”, por exemplo, defendem uma sexualidade contrária ao padrão que as Escrituras estabelecem. Ainda nessa área, “Ai, ai, ai, ai, ai” exalta a paixão sexual ultrarromântica, assim como “Arrependimento”, que diz “Te amo, te amo, te amo / Mais que tudo, mais que Deus”. “A gente merece ser feliz” e “Daquilo que eu sei” defendem o hedonismo. “Caminhos cruzados” advoga o amor irracional. “Acaso” transgride a soberania de Deus ao atribuir ao acaso fatos da vida. “Lua soberana” louva Iemanjá. Em “Ainda te procuro” a alusão é a buscar o amor nas cartas de uma cigana e em “Então é Natal” se insere no meio da música o mantra dos Hare Krishnas, “Hare Rama”. Já “Festas” passa uma noção totalmente equivocada do que é o Natal. A canção “Cartomante” faz um salada ecumênica: “Tenha paciência, Deus está contigo / Deus está conosco até o pescoço / Já está escrito, já está previsto / Por todas as videntes, pelas cartomantes / Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas / No jogo dos búzios e nas profecias”.

E por aí vai.

Ou seja: nem tudo o que parece inocente apresenta valores bíblicos. Em tudo precisamos aplicar o tão falado discernimento.

Agora é preciso observarmos o outro lado da moeda: uma obra de arte apenas relatar histórias de pecados, idolatria, práticas equivocadas e tudo o que há de pior não a condena. Que o diga a própria Bíblia, que relata tudo isso e muito mais, da queda de Adão e Eva aos pecados das igrejas de Apocalipse, passando pelos de Abraão, Moisés, Noé, Jacó, Davi, Pedro, Paulo e muitos outros. O problema, a meu ver, é quando a obra defende a prática.

Já vi cristãos bons e sinceros desmerecerem livros magníficos, como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura “Cem anos de arte5solidão”, que relata, dentro do realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, histórias extraordinárias e explicitamente fantasiosas com pecados gravíssimos, mas sem estimular ninguém a agir daquela forma. Ou “Crônica de uma morte anunciada”, do mesmo escritor, um excelente livro que fala do comportamento humano ante a morte certa. Ou, ainda, “O amor nos tempos do cólera”, uma linda história que tem como mensagem principal o fato de que o amor verdadeiro não depende de tempo, mas sim da pessoa (Jacó, que teve de trabalhar 14 anos por Raquel, que o diga). Imagine se fossemos condenar todos os livros de Sir Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, por exemplo, por sempre versarem sobre crimes. Sherlock Holmes, a propósito, é viciado em cocaína e há roubos e assassinatos em praticamente todas as suas histórias – mas nunca se faz nelas defesa dessas práticas.

Enfim, o que consigo ver na produção artística de variados segmentos, como a música, a literatura, a pintura, a escultura e outras artes é tanto a defesa (provavelmente inconsciente, na maioria dos casos) de valores antibíblicos (como nas músicas citadas acima) quanto a exposição não panfletária de nudez (como a Vênus de Milo, que pratica topless e deixa seu “cofrinho” à mostra – ver fotos) e a representação de um amor arrebatador, desesperado e ultrassexualizado (como em Cantares de Salomão – na Bíblia). Aliás, para quem lê Cantares entendendo o que lê, o comportamento sexual da família Buendia de “Cem anos de solidão” parece história de ninar. Vênus de MiloDeveríamos remover o livro mais erótico da Bíblia do cânon sagrado por causa disso? Ou, talvez, deixar de publicar a Bíblia? Quem sabe ainda proibir nossos filhos de ler as Escrituras, porque citam sexo, bruxaria, assassinatos, genocídios, adultérios, demônios e outras coisas terríveis?

Uma coisa é defender. Outra é relatar. Creio que, por esse pudor bem-intencionado (é importante frisar isso) porém desconectado da realidade, especialmente da realidade em que vivem os nossos jovens, uma grande parcela da Igreja tem falhado profundamente em orientar as novas gerações. Não é à toa que nossas igrejas estão cheias de adolescentes solteiras grávidas e de adultos que nãos sabem como proceder com relação às artes. Pois enquanto o mundo cai batendo sem piedade, nós ainda falamos da abelhinha do papai pousando na flor da mamãe.

Há uma guerra grave e severa no mundo espiritual e, consequentemente, nas instâncias humanas, por nossos corações e mentes. Falo de camarote: eu mesmo já fui vítima dessa guerra e cometi pecados para os quais hoje, após o arrependimento, olho com muita tristeza, profundo lamento e sem acreditar que fui capaz de cometer tamanhas atrocidades. Só que cometi e hoje, embora perdoado por Deus, carrego as cicatrizes – e para sempre as carregarei. Guerras são assim: deixam mortos e feridos por todos os lados e, se você não está bem protegido num abrigo antiaéreo, será atingido. No caso, nosso abrigo chama-se Jesus de Nazaré. O mundo está usando AR-15 e tanques, enquanto nós entramos com estalinhos e pistolas de água. Fica fácil ver de que lado a corda vai romper, se continuarmos nesse caminho. Temos de proteger nossos filhos para que eles não cometam os mesmos erros abomináveis que nós cometemos no passado – e essa proteção deve ser efetuada não com alienação, mas com oração e as indispensáveis informação e instrução (sempre de forma adequada para cada faixa etária, claro). Por ter cometido pecados que hoje abomino tenho de lutar de forma arraigada para que minha filha não os cometa.

arte7O problema é que estamos empreendendo essa luta da forma errada. Pois, em grande parte, nós, cristãos, acreditamos que a alienação é a saída: não deixe ter acesso e está tudo certo; proíba a leitura e seu filho nunca vai pecar. Só que alienação não cria jovens santos: cria jovens alienados. Isolamos nossas crianças e nossos adolescentes, em vez de instruir e ensinar. Proibimos em vez de dialogar (como se eles não fossem ler escondido ou na casa do coleguinha). A saída não é propor uma abstinência dos livros que ganharam o Prêmio Nobel só porque eles relatam histórias de pessoas que pecam, mas estimular que leiam e então discutir com eles o que ali está relatado. Quando leio para minha filha de 2 anos a história do Patinho Feio, explico que discriminar os outros porque são fisicamente diferentes é errado, é racismo, mas não a proíbo de conhecer a história. E, quando leio Chapeuzinho Vermelho, falo sobre a maldade do lobo em oposição à bondade de Chapeuzinho, não a proíbo de ter acesso por se tratar de um livro violento (lembremos que o lobo é sumariamente executado no final). Que dizer então do Gato de Botas, um mentiroso frio e calculista que, para se dar bem na vida, inventa mil ardis para enganar o rei, incentiva outras pessoas a mentir, assassina sem piedade o gigante para poder usar o castelo dele em seu plano maligno de ascensão social e no fim… vive feliz para sempre. Leio com minha filha a história, mas explico cada erro cometido, cada equívoco. E, sabe… hoje minha filha não vai muito com a cara do Gato de Botas.

Sou a favor da boa música, secular ou cristã. Sou a favor da boa literatura – secular ou cristã. Sou a favor das boas artes plásticas – seculares ou cristãs. Não deixarei de estimular minha filha a ler a magnífica obra de Gabriel Garcia Marquez, mas vamos conversar arte8muito sobre as mensagens de seus livroArte6s – as boas e as más. Não deixarei de levar minha filha para ver os quadros da fase negra de Goya (ao lado) devido à violência e ao mal retratados neles – mas lhe contarei por que aquelas imagens são assim. Não vou fugir das galerias do Louvre onde estão estátuas greco-romanas de homens nus, mas instruirei minha filha sobre os conceitos estéticos vigentes naquelas culturas e o que podemos tirar daquilo. Bem orientada, não creio que nada disso a tornará uma depravada. Pelo contrário, a deixará instruída e prevenida. Até porque, em paralelo, estarei ensinando a ela o Evangelho, explicando por que Deus mandava seu povo dizimar nações à espada, permitia a poligamia, mandava apedrejar pessoas até a morte, ordenava que cunhados se casassem só para gerar descendentes e outras práticas bizarras que ali são relatadas mas não estimuladas na nova aliança.

Porque, sejamos coerentes, se formos simplesmente proibir nossos jovens de ler livros que contêm violência, relatos de atos sexuais ilícitos e depravados, histórias de pecados horripilantes, descrições extraordinárias de anjos duelando com demônios e relatos de experiências de seguidores de doutrinas de demônios… nenhum deles jamais leria a Bíblia.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Mauricio

***

Fonte: Apenas1. Divulgação: Púlpito Cristão.

27/06 por: Leonardo Gonçalves 13 Comentários.

‘Se Deus é bom por que Ele permite a dor?’ Maurício Zágari responde

A pergunta que não quer calar. Quem gosta de sofrer? Muitos já fizeram essa pergunta, “Se Deus é bom por que Ele permite a dor?” Um escritor cristão responde.

Maurício Zágari, autor do livro vencedor do Prêmio Areté 2011 como Autor Revelação e Melhor livro de Ficção/Romance – com o livro “O Enigma da Bíblia de Gutemberg“, escreveu em seu blog sobre o assunto, revelando seus sofrimentos pessoais por meio de uma doença incurável.

“Se Deus é bom por que Ele permite a dor? Por que o Deus que é amor permite tanto sofrimento, até entre seus filhos?” pergunta ele.

O autor revela que possui um doença incurável há 16 anos, chamada fibromialgia, que o faz sentir dor 24 horas por dia, 7 dias por semana. Segundo ele, ela não tem cura e o impede que desempenhe uma série de atividades físicas, como digitar no computador, dirigir, carregar peso, fazer exercícios, entre outros.

Assim, falando como um esperto no assunto “sofrimento”, ele diz que muitos tem o mesmo questionamento sobre a permissão de Deus em deixá-los nessa condição.

“Quanto e quantos de nós já não passamos por situações de dor – seja física, moral, emocional ou de qualquer outro tipo – e questionamos o Senhor sobre nossa condição? Isso já aconteceu comigo e certamente também com você”.

Maurício diz ter sofrido muito, não somente com os sintomas da doença, mas também pela reação das pessoas que chegam a não acreditar na doença por não entenderem a “moléstia invisível”, visto que a doença não pode ser detectada através de exames.

Mas Zágari afirma que acredita que o Senhor o deixa passar por isso para que no futuro possa auxiliar outras pessoas que venham a passar pela mesma situação e solidificar seu relacionamento com Cristo.

“Em outras palavras, penso que Deus autoriza a dor para que mais à frente possamos usar a experiência advinda desse sofrimento com o objetivo de ajudar o próximo que esteja vivendo aquilo que já vivemos. E, nesse ajudar, tanto quem ajuda quanto quem é ajudado desenvolve, fortalece e solidifica muito seu relacionamento com Cristo.”

Numa postagem anterior, ele diz que a doença lhe permitiu glorificar o nome de Deus. “Pelo menos 9 pessoas de minha família foram salvas por Jesus de um modo ou de outro por causa dessa minha doença, por caminhos que você não imagina”.

Ele também afirma que desde que a doença manifestou-se no seu corpo, ele traduziu 17 livros cristãos, usando um software de ditado vocal e escreveu quatro livros com o velho método de caneta sobre caderno.

“Deus tem me dito que ‘Sua graça me basta’ e tem me dado meios e alternativas – assim consegui sobreviver aos meus últimos 16 anos.”

Apesar de ainda continuar a orar pela cura, ele fala como isso o aproximou mais de Cristo, de uma maneira prática e não teórica.

“(…) parei de ver Cristo como um personagem e passei a enxergá-lo como uma pessoa. Deixei de buscá-lo por interesse, como o balconista que poderia me dar algo, e comecei a ter intimidade com Ele, a ter uma relação pessoal, de diálogo, de compartilhamento.”

Maurício hoje quase não toca no assunto de sua enfermidade e diz não “murmurar” ou “lamuriar mais”. Ele ora todos os dias pedindo a cura e acredita veementemente que as coisas ruins que acontecem servem para ajudar aqueles que passam pela mesma situação e dar glória a Deus.

Assim, ele urge aos cristãos que “você possa usar o seu sofrimento, e aquilo que com ele aprender, para a glória do Criador do Universo e para ajudar o seu próximo”.

***
Maurício Zágari é escritor, jornalista e escreve para o blog Apenas. Fonte: Christian Post.

25/05 por: Leonardo Gonçalves 69 Comentários.

Cristão deve fazer tatuagem?

Por Maurício Zágari

Lembro-me de um semestre no seminário teológico em que lecionei por 9 anos quando passei como trabalho para os alunos que fizessem uma análise sobre o que significavam as obras da carne descritas em Gálatas 5. Dos cinco grupos, dois entregaram o material com uma capa onde havia fotos de pessoas tatuadas, com piercings, espaçadores de orelhas, cabelos pintados de verde e similares. Isso deixou claro para mim que esses elementos compõem, no imaginário geral do evangélico brasileiro, o arquétipo do que seria a pessoa mundana, pecadora. E é muitíssimo frequente essa questão vir à tona: cristãos podem se tatuar? É um assunto secundário e de menor importância para o Evangelho, mas como é um pedido recorrente nos comentários do APENAS que eu fale sobre o tema e como cresce a cada dia nas nossas igrejas o número de irmãos que ostentam tatuagens, farei uma análise bíblica, histórica e cultural da questão. Antes de continuar, só um registro: não sou tatuado nem pretendo me tatuar.

Antes de entrar pelo assunto em si explico por que disse que é “assunto secundário e de menor importância para o Evangelho”. Nos dias de hoje, em que a Igreja padece com o destemor dos seus membros, a falta de devocionalidade, o menosprezo pela oração, o posicionamento da leitura bíblica em segundo plano, a falta de amor ao próximo, a total irreverência pelas coisas de Deus, o uso de palavras torpes por pastores em púlpito visto com naturalidade, o mundanismo invadindo o santuário por todas as frestas, o desprezo pelo fruto do Espírito, a supervalorização e o mau uso dos dons, o esfarelamento do Corpo em facções e panelinhas… algo como aplicar tinta sobre a pele continua sendo visto como um assunto importante. Quando me perguntam se eu gostaria de visitar a Disneylândia, respondo: “Claro, depois de visitar 238 lugares antes”, simplesmente porque não tenho o menor interesse em gastar meu tempo naquele parque de diversões. Prefiro antes conhecer Israel, a Grécia, a Rússia, o Japão. Gosto de História, quero ver castelos e ruínas. Não desmereço quem acha a Disneylândia o must, mas para mim o interesse é mínimo. Do mesmo modo, muitos setores da Igreja acham que a questão das tatuagens está entre o top ten das preocupações de Deus. E quando vejo a falta de amor ao próximo, a egolatria e a agressividade que têm crescido assustadoramente entre os cristãos olho para o tema das tatuagens e penso “como isso pode ocupar tanto a preocupação de tantos? Há 238 preocupações maiores”. Mas tudo bem, vamos lá.

Biblicamente não há qualquer proibição a se tatuar. Sim, eu sei, aí imediatamente alguém se levantará para citar Levítico 19.28: “Pelos mortos não ferireis a vossa carne; nem fareis marca nenhuma sobre vós. Eu sou o Senhor”. A primeira vista, parece óbvio: Deus manda não fazer nenhuma marca no corpo, a tatuagem é uma marca no corpo, logo é pecado se tatuar. Só que para entender esse texto temos que entender o contexto.

Por que Deus estabeleceu essa norma para os israelitas? A resposta é que havia um povo, chamado caldeu, que tinha como hábito religioso cortar a carne de seus próprios corpos e fazer marcas com lâminas afiadas na pele como parte dos seus rituais aos falsos deuses que seguiam (a exemplo do que ocorre atualmente em muitas tribos africanas). Eram marcas que denunciavam idolatria. Em outras palavras, o que Deus está dizendo é que os hebreus não deviam cometer as práticas idólatras dos povos pagãos com que tinham contato. Se fosse em nossos dias, seria mais ou menos como dizer “Não poreis despacho na encruzilhada” ou “Não rezareis para santos mortos”.

Essa orientação era tão direta e específica para aquele povo que se formos ler o versículo imediatamente anterior, teríamos hoje de cumprir o que ele determina: “Não cortareis o cabelo em redondo, nem danificareis as extremidades da barba” (Lv 19.27). Bem, não vejo nenhum pastor pregar contra cabelos arredondados ou contra fazer a barba – pelo contrário, em denominações como a Assembleia de Deus é até mal visto usar barba, a ponto de a Casa Publicadora dessa denominação apagar no photoshop a barba de indivíduos cujas fotos são publicadas em seus jornais e revistas. Ou, ainda, teríamos hoje de guardar o sábado, visto que dois versículos depois, em Levítico 19.30, Deus especifica: “Guardareis os meus sábados e reverenciareis o meu santuário. Eu sou o Senhor”. O contexto hermenêutico deixa claro que eram leis específicas para os israelitas daquela época e o contexto cultural mostra a razão de o Altíssimo proibir marcas nos corpos: não cometer as práticas religiosas idólatras dos povos vizinhos. Não tem rigorosamente nada a ver com tatuagens não-rituais e muito menos Lv 19.28 se aplica à Nova Aliança.

A conclusão é que, biblicamente, não: o ato de se tatuar em si não constitui pecado.

Ok, agora virá alguém e dirá que nosso corpo é templo do Espírito e que fazer tatuagens nele seria pecar contra o mesmo. A esse respeito há alguns aspectos: primeiro, se fazer qualquer coisa que prejudique nosso corpo é um atentado contra o templo, não poderíamos comer comida salgada, ingerir açúcar (muito menos adoçantes), comer pizza (cheia de gordura que causa obesidade e entope artérias), tomar refrigerante (das coisas que ingerimos uma das mais maléficas) ou comer torresminho (um pedido explícito para se ter um AVC). Comer no McDonald´s então seria pecado sem perdão. Logo, devemos olhar esse argumento com muito cuidado. Segundo, no contexto de 1 Coríntios 6.19, que diz “Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos?”, o que está sendo tratado aqui são questões de natureza sexual.

Veja os versículos anteriores, a partir do 15: “Vocês não sabem que os seus corpos são membros de Cristo? Tomarei eu os membros de Cristo e os unirei a uma prostituta? De maneira nenhuma! Vocês não sabem que aquele que se une a uma prostituta é um corpo com ela? Pois, como está escrito: “Os dois serão uma só carne”. Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele. Fujam da imoralidade sexual. Todos os outros pecados que alguém comete, fora do corpo os comete; mas quem peca sexualmente, peca contra o seu próprio corpo”. E aí vem o versículo em questão: “Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos?”. Logo, o que está sendo discutido aqui é o corpo como santuário do Espírito de Deus no que tange à imoralidade sexual, não tem nada a ver com tinta aplicada sobre a pele.

Sob o aspecto cultural, a repulsa que a Igreja sempre mostrou a essa prática vem do fato que, até algumas décadas atrás, nas sociedades ocidentais, os grupos que se tatuavam geralmente apresentavam um comportamento bastante mundano. Eram, em especial, marinheiros, que quando aportavam em alguma cidade podiam ser vistos em prostíbulos ou bastante bêbados, com atitudes bastante réprobas. Logo, sempre que a sociedade “bem-comportada” via essas pessoas tatuadas era em situações de devassidão, mau exemplo ou pecado. Assim, essa visão foi sendo passada de geração em geração e, para um grupo como os cristãos, para quem prostituição e beber álcool são o supra sumo da pecaminosidade, gente tatuada passou a ser sinônimo de gente pecadora. Só que o problema desses indivíduos não eram as tatuagens, era seu comportamento antibíblico.

O tempo passou e nos nossos dias a tatuagem perdeu essa conotação. Hoje há muitas e muitas pessoas de vida honesta que se tatuam. A associação de tatuados com baderneiros arruaceiros e gente de má fama deixou de existir. Então, com o passar do tempo, na sociedade ocidental aplicar pigmentos sobre a pele perdeu aquele aspecto negativo de décadas e séculos passados. Mas, por uma tradição cultural, as novas gerações herdaram das antigas que se tatuar é sinônimo de devassidão anticristã e por isso, sem conhecer as origens da questão, dão continuidade ao que aprenderam de seus pais, sem nem ao menos saber explicar as razões. Bem, aqui expliquei.

Portanto, não podemos dizer que biblicamente ou culturalmente haja condenação para o uso da tatuagem.

Mas, antes que os tatuados saiam dando gritinhos de alegria, temos que dar atenção a outros fatores, em especial no meio cristão. É de suma importância aos olhos de Deus a unidade do Corpo. Por isso, em diversas passagens da Bíblia somos alertados que existem coisas que “são lícitas mas não nos convém”. Devemos estar atentos para não levar os irmãos à murmuração, ao escândalo, ao julgamento. Muitas vezes o fazem por tradição, outras por ignorância ou mesmo por diferença de gerações, mas, indepentente da razão, o que importa é termos paz com todos. Romanos 8.13ss, nos alerta: “Portanto, deixemos de julgar uns aos outros. Em vez disso, façamos o propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão. Como alguém que está no Senhor Jesus, tenho plena convicção de que nenhum alimento é por si mesmo impuro, a não ser para quem assim o considere; para ele é impuro. Se o seu irmão se entristece devido ao que você come, você já não está agindo por amor. Por causa da sua comida, não destrua seu irmão, por quem Cristo morreu. Aquilo que é bom para vocês não se torne objeto de maledicência”.

Repare as palavras de Paulo: é mais importante não gerar maledicência ou escândalo entre os irmãos do que fazer aquilo que não tem nenhum problema segundo a Bíblia. O mesmo ele repete pouco depois, no capítulo 14: “Como alguém que está no Senhor Jesus, tenho plena convicção de que nenhum alimento é por si mesmo impuro, a não ser para quem assim o considere; para ele é impuro. Se o seu irmão se entristece devido ao que você come, você já não está agindo por amor. Por causa da sua comida, não destrua seu irmão, por quem Cristo morreu. Aquilo que é bom para vocês não se torne objeto de maledicência. Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo; aquele que assim serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens. Por isso, esforcemo-nos em promover tudo quanto conduz à paz e à edificação mútua. Não destrua a obra de Deus por causa da comida. Todo alimento é puro, mas é errado comer qualquer coisa que faça os outros tropeçarem. É melhor não comer carne nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve seu irmão a cair. Assim, seja qual for o seu modo de crer a respeito destas coisas, que isso permaneça entre você e Deus. Feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova”.

O que essas passsagens nos dizem? Tatuar-se biblicamente é pecado? Não. Tatuar-se culturalmente no Brasil é sinal de devassidão moral? Não. Mas ainda há aqueles que se escandalizam ao ver na igreja quem se tatue? Sim. Portanto, o grande problema de o cristão se tatuar não passa por “poder ou não poder”, passa pelo amor ao próximo.

É o mesmo caso de mulheres usarem saias ou calças em igrejas mais conservadoras. Esse hábito surgiu porque décadas atrás, no início do século 20, calça era roupa exclusivamente de homens. Absolutamente todas as mulheres no Brasil usavam saia. As décadas se passaram e a calça, entre os anos 50 e 60, deixou de ser traje exclusivo de homens e foi adotado pelas mulheres. Ninguém mais se escandaliza em nossa sociedade ao ver uma mulher, por exemplo, de terninho. Porém, nessas igrejas o costume foi passando de geração a geração, os mais antigos foram morrendo e os mais novos, sem saberem explicar a origem da proibição de calças na igreja por mulheres apenas mimetizam o que aprenderam, sem saber as origens ou as razões. E aí criamos um bando de estranhos ao século 21, que acreditam que mulher usar calça é pecado – quando não é, se for uma calça decorosa.

Mas, do mesmo modo que a tatuagem, se você opta voluntariamente por ser membro de uma congregação onde a norma seja a mulher usar saia, se usar calça estará sendo desobediente às regras da assembleia onde está e, portanto, em rebeldia – e pecará por levar os irmãos ao escândalo e à murmuração.

A conclusão é: se o meio que você frequenta tem usos e costumes, não afronte, faça parte. Se discordar, saia e procure outro meio. Ou fique, adote o hábito e tente com amor ir influenciando os irmãos no conhecimento da verdade. O confronto jamais é o caminho. Por uma razão simples: é pecado.

E há ainda alguns pontos a ponderar. Aqui tomo por base um texto muito bem refletido publicado no blog de Nathan Joyce (foto à esquerda), Pastor do Heartland Worship Center, em Paducah (EUA) e divulgado no twitter pela irmã Francine Veríssimo (@FranVerissimo_), de quem tirei as boas reflexões que acrescento abaixo. O artigo, originalmente em inglês, chama-se “O que tatuagens realmente dizem”. Após mencionar que estimados 45 milhões de estadunidenses hoje são tatuados, o autor lembra alguns pontos relevantes:

1. Você vai envelhecer e se tornar um avô ou avó. E ninguém quer identificar seus avós como aqueles que têm “uma caveira ou arame farpado”.

2. Lembre-se que, na medida em que envelhece, seu corpo muda. Sua tatuagem vai acompanhar as mudanças. Cuidado, pois ao passo que sua pele se torna mais flácida, a borboleta em seu ombro pode se transformar num pterodáctilo e sua rosa pode virar o planeta Saturno.

3. De jeito algum tatue o nome de um namorado ou noivo. Se o relacionamento acabar, seu futuro marido ou esposa não vai gostar nada disso.

Joyce se pergunta por que afinal alguém precisa tanto se tatuar. Tatuagens dizem algo a nosso respeito. Que necessidade tentamos suprir com elas? Qual é a psicologia das tatoos? Mais ainda: qual é a espiritualidade delas? E ele apresenta sua conclusão: as pessoas se tatuam porque desejam desesperadamente pertencer e se expressar. Desejamos ter vidas que digam algo, queremos nos identificar com algo publicamente e nos marcar permite que nos expressemos e nos identifiquemos com a imagem de nossa escolha. Certo ou errado, é uma tentativa de realizar uma necessidade humana. Uma vez que se tatua, você assumiu um compromisso de longo prazo com uma imagem que para sempre vai marcá-lo, ou seja, identificá-lo e expressar algo a seu respeito para os outros. Ou seja: nos etiquetamos.

E ele continua: “De onde vem essa necessidade? Do fato de que fomos feitos à imagem de Deus, que também ama o pertencimento e a autoexpressão. Mesmo antes da Criação, Deus se identificava e pertencia à Trindade e a Criação é uma autoexpressão de Deus. E assim o Senhor nos criou do mesmo modo. Somos incompletos, a menos que pertençamos a algo ou alguém – nosso desenvolvimento depende disso. Os humanos também almejam uma vida que expresse legado. O problema é que o pecado atrapalhou todo o processo. Por causa dele, nossa busca por identificação tornou-se tóxica e compulsiva e nossa necessidade de autoexpressão deixou de ser motivada por amor, mas por desejo de grandeza e egocentrismo. Nossa cultura ama se expressar, não porque desejemos amar o próximo por meio dessa expressão, mas porque amamos ser o centro das atenções”. No final, essa profunda necessidade humana de pertencimento e expressão não será alcançada por meios humanos – somente quando o amor passar a habitar em você. E não qualquer tipo de amor, mas o amor de Cristo. Esse amor lhe convida a pertencer a um Deus eterno e a expressar Seu amor e Seus propósitos eternos.

Ao final, Pastor Joyce tem uma magnífica epifania: tatuado ou não, o amor é a marca que identifica você com Cristo. Um amor expressado por boas obras em benefício do próximo deixa uma marca que jamais se apagará.

Paz a todos vocês que estão em Cristo

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Maurício Zágari é jornalista, escritor e editor do blog Apenas. Divulgação: Púlpito Cristão.

07/05 por: Leonardo Gonçalves 34 Comentários.

Os erros dos clichês cristãos pós-modernos

Por Maurício Zágari

Vivemos a era das frases curtas. De repente a nossa fé pulou no imaginário de uma enorme parcela da Igreja brasileira da Bíblia e dos livros para adesivos de automóvel, 140 caracteres do twitter, fotos com frasezinhas do Facebook, slideshows no YouTube, blogs com três ou quatro parágrafos. Preguiçosos que somos, passamos a ser governados por teologia fast food em vez de por leituras com introdução, desenvolvimento e conclusão. Ao longo de algum tempo, fiz uma coletânea de clichês gospel que ouço pelos arraiais evangélicos (das igrejas organizadas aos desigrejados) para que possamos comentar cada um. Leia e veja se você já não ouviu essas frases serem repetidas montes de vezes – sem que aqueles que as falam tenham gasto cinco minutos refletindo sobre seu significado. Vamos analisá-los biblicamente e historicamente:

- “Eu declaro/decreto a bênção” – Bênçãos são benefícios vindos unilateralmente de Deus e por decisão soberana dEle. Ninguém pode declarar ou decretar uma bênção, pois está fazendo aquilo que só o Senhor pode fazer. Quem o faz toma o lugar de Deus e, portanto, pratica idolatria. Sem falar que essa afirmação, fruto da chamada “Confissão Positiva”, tem raízes em religiões demoníacas de Nova Era (saiba mais sobre isso no post Demonologia da Prosperidade).

- “Eu tomo posse da bênção” – “tomar posse” significa literalmente se apossar de algo que não é seu. Quem “toma posse” é um posseiro, ou seja, alguém que invadiu um local que não lhe pertence e impõe pela força e presença o domínio sobre o que é dos outros. Como vimos acima, bênção é um benefício outorgado por Deus, por sua soberania. Quem quer “tomar posse” de uma bênção está dizendo, em outras palavras, que vai arrancar do Senhor na marra aquilo que quer para si e que só receberia se fosse concedido pelo Todo-Poderoso. Logo, essa frase, (cunhada com base no Antigo Testamento, quando o povo de Israel entrou na Terra Prometida e teve de “tomar posse” dela na base da briga, visto que era habitada por outros povos) é uma afronta à vontade soberana de Deus, que concede bênçãos a cada um conforme lhe apraz e não porque as tomamos dele à força.

- “Tá amarrado” – parte do princípio de que podemos atar demônios com amarras espirituais. Não existe tal expressão na Bíblia e o que as Escrituras nos ensinam a fazer com os demônios é expulsá-los imediatamente quando se manifestam, e não amarrá-los. Não vemos nenhum exemplo bíblico de Jesus ou os apóstolos “amarrando” demônios. O padrão bíblico é: “Cala-te e sai”. Jesus não perdia tempo dialogando com demônios, apenas os mandava ficar quietos e então os expulsava. O único episódio de possessão em que Jesus vai além do “cala-te e sai” é o do gadareno. E, mesmo assim, a ordem de Cristo não é amarrar ninguém, mas sair na hora da pobre alma atormentada.

- “Temos que voltar ao modelo da Igreja primitiva” – se fizermos isso, estamos lascados. A Igreja primitiva, ao contrário do que existe no imaginário popular cristão, estava a anos-luz da perfeição. Em Atos lemos casos como os de Ananias e Safira, discordâncias com os judaizantes, brigas internas entre crentes como Paulo e Pedro, duplas missionárias sendo divididas por discordâncias. A esmagadora maioria das epístolas do NT foi escrita para consertar as montanhas de erros que os primeiros cristãos cometiam. Na Ceia do Senhor muitos iam só para matar a fome e os que levavam mais não dividiam com quem não tinha posses. Se lemos as sete cartas às igrejas de Apocalipse vemos como a maioria estava distante da vontade de Deus. Nos 313 anos em que houve perseguição do Império Romano aos cristãos, surgiu o fenômeno dos “lapsi”, aqueles que, ao contrário dos mártires, negavam Jesus perante as autoridades para salvar suas vidas – e não foram poucos os que fizeram isso. Nas catacumbas, que eram essencialmente cemitérios subterrâneos, os cristãos mais ricos tinham direito a sepulturas mais luxuosas que os pobres e, muitas vezes, ganhavam câmaras inteiras exclusvas para suas famílias. Havia muitos privilégios concedidos aos abastados na Igreja primitiva.

Além disso, a Igreja primitiva foi assolada por montes e montes de heresias que surgiram em seu seio, como gnosticismo, sabelianismo, modalismo, monofisismo, eutiquianismo, pelagianismo, marcionismo, ebionismo e outros “ismos” que denunciam como ela era dividida, como havia desacordos, divergências de visão e rachas. Tudo isso mostra que retomar o modelo da Igreja primitiva não é viver um Evangelho puro e simples, como muitos pensam, é voltar a uma época cheia de enormes poluições, divisões, pecados e problemas no seio do Corpo de Cristo. Igualzinho aos nossos dias.

- “Os primeiros cristãos se reuniam em lares e não em templos, por isso devemos voltar a esse modelo” – os primeiros cristãos, aqueles cheios de imperfeições que vimos acima, só se reuniam em lares por uma única razão: como por 313 anos o cristianismo foi considerada uma religião criminosa pelo Império Romano, qualquer um que se confessasse cristão tinha seus bens tomados, era preso, torturado e morto. Por isso, o culto a Jesus tinha de ser feito de modo escondido. O único lugar onde havia um mínimo de privacidade eram os lares dos cristãos, que podiam simular uma visita social e ali realizavam suas liturgias. Mas, com o Edito de Milão, no ano 313, decreto que liberou a religião cristã, imediatamente os que se ocultavam, ávidos por comungar com mais irmãos, começaram a erguer templos onde pudessem se ajuntar e reverenciar o Senhor coletivamente. Em pouco tempo, graças à liberdade religiosa, o culto em lares tinha sido extinto.

Para fazer um paralelo com nossos dias, é só ver o caso da China, por exemplo, onde não se pode cultuar Jesus publicamente e por isso lá existe a chamada “igreja subterrânea”, ou seja, os irmãos são obrigados a se reunir em pequenos grupos, nos porões de suas casas, para cultuar Jesus em oculto. Se você perguntar a um membro desses grupos em lares se eles preferem esse tipo de modelo ou se gostariam de ter templos onde se reunir em maior quantidade e celebrar a liturgia da adoração com muito mais irmãos (como eu já fiz, em entrevistas com membros da Igreja subterrânea chinesa para reportagens que escrevi), verá que TODOS eles dão preferência ao ajuntamento em santuários, onde poderiam comungar em maior número, num local dedicado e visível, que servisse de referência para os não cristãos em sofrimentos saberem que ali podem encontrar ajuda. Uma reunião num lar dificilmente será encontrada por quem está vivendo aflições que só Deus pode aliviar, o que não ocorre se você tem um templo bem visível.

- “Jesus não criou uma religião” – a palavra “religião” vem do latim “religare” e significa “ligar duas partes separadas”. Portanto, em sua essência, religião cristã é o contato entre Cristo e o homem, é o “religare” entre o Pai e o filho. Religião, assim, é relacionamento, é intimidade. Logo, quando ora você pratica religião. Quando lê a Bíblia você pratica religião. Etimologicamente, qualquer pessoa que se liga a Deus é um religioso sim senhor, pois pratica o “religare”. Portanto, ao ensinar a oração do Pai Nosso, Jesus nos estava ensinando a ser religiosos, no sentido de sabermos nos comunicar bem com o Pai. Quando ouvimos “pedis e nada recebeis pois pedis mal”, o que está sendo dito é “você está praticando mal a sua religião”. É claro que, como muitas palavras da língua portuguesa (como “manga”, que pode ser a fruta ou uma parte de uma blusa), o termo “religião” pode ter o significado de “prática organizada de uma fé”, basta ver no dicionário. É a “famigerada” instituição. Em geral é nessa acepção que a frase em questão é dita. Nesse sentido, quando Jesus diz a Pedro que sobre Ele (a Pedra) seria erguida Sua Igreja, o Mestre está estabecendo-se como o alicerce, o fundamento da fé que se seguiria pelos milênios a seguir. Só que Ele em nenhuma passagem da Bíblia especifica como o homem deveria manter o Corpo sobre esse fundamento. Isso é uma decisão que Jesus deixou a cargo do homem. Fato é que se Jesus nunca instituiu uma organização religiosa que o tivesse como alicerce, também nunca proibiu. Repare que o que Jesus critica, por exemplo, nos maus fariseus em momento algum é sua organização ou o fato de cultuarem Deus de modo institucional, sua crítica a eles era uma questão do indivíduo, do coração, e não da instituição: a hipocrisia, a falsa aparência de piedade, a religiosidade aparente sem um “religare” autêntico, sempre questões de foro pessoal e nunca institucional.

- “Jesus nunca construiu templos, por isso devemos nos reunir em lares” – se Jesus nunca construiu templos, também nuca construiu casas. Por esse argumento, se não devemos adorá-lo em templos institucionais também não poderíamos adorá-lo em lares. Dá na mesma. A resposta e a solução para essa pendenga de se podemos ou não cultuar Jesus em templos está em duas passagens bíblicas. Em João 4.19ss, lemos o diálogo entre o Mestre e a samaritana: “Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que tu és profeta. Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”. Eis a primeira resposta: seja no templo, num lar, no monte ou em Jerusalém, importa adorar em espírito e em verdade. Se é o que a pessoa faz, não se pode condenar o local só porque Jesus nunca construiu um edifício.

Temos que lembrar que os discípulos adoraram muitas vezes o Senhor na cadeia. E Jesus também nunca construiu uma cadeia. Outra passagem reveladora que contradiz essa frase incoerente está nas palavras de Jesus relatadas em Mateus 18.20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”. Se houver dois ou três reunidos em nome de Jesus num templo de uma igreja institucional Ele ali não estará? Se houver dois ou três reunidos em nome de Jesus num templo do tipo que Jesus nunca ergueu Ele não se fará presente? A resposta é óbvia. Então o fato de Jesus nunca ter construído um templo, uma igreja ou uma catedral é absolutamente irrelevante, desde que haja ali dois ou três reunidos em Seu nome e o adorando em espírito e em verdade. Quem perde tempo combatendo isso e advogando furiosamente a reunião em lares só está perdendo tempo.

- “Não cai uma folha da árvore se Deus não deixar” – embora faça sentido biblicamente, visto que Deus é soberano e controla tudo o que ocorre no universo, sejam fatos bons ou tragédias, essa frase não está em nenhum lugar da Bíblia.

- “Sou cristão, não evangélico” – essa frase é fruto da vergonha de ser designado pela mesma nomenclatura de igrejas e pastores que têm enlameado o bom nome da Igreja evangélica. Então, para evitar ser associados por amigos e parentes a esses grupos, muitos têm optado por se dizer apenas “cristãos” e repudiam enfaticamente o nome “evangélico”. Mais do que deixar de ser evangélicos, se tornam antievangélicos. Isso é nonsense, pelo simples fato que não resolve nada. Os que enlameiam nosso nome também se dizem “cristãos”. Pela mesma lógica, deveríamos abandonar esse termo também? A resposta é óbvia. Etimologicamente, “evangélico” é o que segue o Evangelho de Jesus. Historicamente, “evangélico” é o que segue o Evangelho conforme resgatado pela Reforma Protestante. Logo, se você é cristão, professa o Evangelho de Cristo e coaduna com os cinco “solas” da Reforma… você é evangélico, queira ou não. É uma nomenclatura de 500 anos que define quem tem essas características. Renegar isso é dizer que você não é o que você é. Portanto, em vez de dizer “não sou o que sou, sou só cristão” por vergonha de ser associado a igrejas e pastores dos quais se envergonha, o ideal é deixar claro para os de fora que nós somos sim evangélicos, enquanto os que praticam atrocidades em nome da fé é que não são.

Se alguém faz piadinha pelo fato de você ser evangélico, em vez de mudar sua nomenclatura aproveite a oportunidade e explique para o piadista a razão de você portar esse honroso nome, fale que evangélico significa “aquele que segue o Evangelho de Cristo conforme resgatado pelos reformadores”, explique por que os falsos cristãos não são evangélicos e aproveite para explicar o que são as boas-novas da salvação do genuíno Evangelho de Cristo. Assim, ser humilhado por ser evangélico é uma excelente oportunidade não de mudar por vergonha o que te define, mas sim de explicar aos não cristãos o que é o Evangelho da salvação. De e-van-ge-li-zar. A escolha é sua.

- “Deus é amor e por isso não controla as tragédias nem desastres naturais, como os tsunamis” – essa heresia teológica vem sendo pregada por um pequeno grupo que segue a linha do Teísmo Aberto americano, uma linha de pensamento que no Brasil foi chamada por um pastor evangélico que não se diz evangélico de Teologia Relacional. Ele e mais um punhado de pastores e acadêmicos celebrados nas mídias sociais (além de um grupinho de pessoas que tentam pegar carona em suas celebridades para se promover) começaram a propagar essas ideias pelas redes sociais, dizendo que Deus abriu mão de sua soberania e não controla as tragédias que ocorrem no mundo. Segundo essa heresia, Deus só está preocupado em relacionamentos e o conceito de Jeová controlando as forças da natureza seria fruto da incorporação de valores da filosofia e da religião grega no Cristianismo. Esquecem que Deus abriu o Mar Vermelho e o Rio Jordão, que Jesus acalmou a tempestade, que o Sol “parou” e retrocedeu, que houve um terremoto no momento em que Jesus entregou o seu Espirito… para essa heresia tudo isso são metáforas, o que associa esse pensamento à diabólica Teologia Liberal de Bultmann e outros teólogos – segundo a qual a Bíblia não é literal e muitos de seus relatos são apenas fábulas. Ao propagar essa afirmação, os adeptos da Teologia Relacional destituem Deus daquilo que é indissociável de Sua essência: Seu poder absoluto sobre todas as coisas e Sua soberania sobre tudo o que ocorre no universo. É, portanto, uma afirmação antibíblica e anticristã.

- “Padussinhô” – cumprimento que originalmente tinha um significado muito bonito e bíblico: “A paz do Senhor”. O problema é que a expressão de popularizou de tal forma que as pessoas nem pensam mais no significado do termo. Passam umas pelas outras no corredor da igreja e soltam um “Padussinhô” sem nem se tocar do profundo significado da expressão. Da próxima vez que você for saudar alguém com essas palavras, concentre-se em seu belo significado: que você está desejando a aquele irmão a paz que excede todo o entendimento vinda do Príncipe da Paz, que saudava seus amigos desejando exatamente a mesma coisa. Lembra das palavras do Mestre ao chegar, ressurreto, entre os discípulos, por exemplo, em Lucas 24? “Falavam ainda estas coisas quando Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: Paz seja convosco!”. Não deixemos uma saudação tão significativa perder seu sentido: ao a falarmos, que de fato estejamos desejando paz a aquela pessoa. Só um porém: você já parou para pensar o que exatamente significa “paz”? Significa “Quietação de ânimo, sossego, tranquilidade, ausência de dissensões, boa harmonia, concórdia, reconciliação”. Vale a pena investir um tempo meditando sobre cada um desses valores que dedicamos aos irmãos.

- “Temos que contextualizar o Evangelho à cultura de cada época e sociedade” – a afirmação em si é correta, isso é exatamente o que temos de fazer. Não adianta pregarmos o Evangelho no século 21 de túnica e sandália de couro. O problema é que alguns setores da Igreja têm levado essa ideia correta além no limite de segurança. Têm conduzido esse conceito ad absurdum. Com isso, tentam com tanta força e ímpeto falar a linguagem de nossos tempos para atrair o mundo que acabam muitas vezes sendo mais mundo que Igreja. É o que ocorre, principalmente, entre a chamada Igreja emergente: os próprios pastores acabam cometendo excessos e absurdos como pregar falando palavrões de púlpito e recomendar a ida a seus membros a shows de artistas com letras anticristãs e estéticas agressivas, como Ozzy Osbourne e Titãs (grupo que tem canções altamente antibíblicas, como “Igreja”, “Homem Primata” e “Epitáfio”). É preciso muita cautela. Pois nunca podemos esquecer que o Evangelho é, sempre foi e sempre será escândalo para os que não creem e que é contracultura. Isso em qualquer época e em qualquer cultura.

- “Fala, Deus” – geralmente é dito quando um pregador diz algo que o irmão ou a irmã acham que deveria ser ouvido por alguém da igreja ou por toda a congregação. É uma espécie de “toma, desgraçado, que Deus tá dizendo aquilo que eu penso que você deveria ouvir”. Na maioria das vezes não é dito com amor no coração e, por isso, é algo reprovável. A não ser que a exortação seja para si mesmo. Aí… fala, Deus!

- “Eis que eu te digo…” – nos arraiais pentecostais significa que está começando uma profecia da parte de Deus. Nada contra. Sou pentecostal e creio na atualidade dos dons. O problema é que ser “profeta” dá status entre os irmãos, como se a pessoa que profetiza fosse merecedora de um amor especial da parte de Deus. Por isso, não são poucas as pessoas que simulam profecias e, com isso, cometem o gravíssimo pecado de pôr nos lábios do Senhor o que Ele não falou. Sem falar do estrago causado junto à pessoa a quem a falsa profecia foi dirigida, que vai acreditar que Deus lhe deu algum direcionamento que na verdade não deu. Assim, antes de dizer “eis que eu te digo”… trema!

- “Em nome de Jesus” – a expressão é bíblica e o Mestre nos autorizou a usá-la. A questão é que muitos a estão usando com significados que não deveriam ter, como se fosse um “abracadabra”. Como disse Walter McAlister no livro “O Fim de uma Era”, tem sido usada com o sentido de “tem que dar certo”. “Eu vou conseguir esse emprego em nome de Jesus”. “Você vai namorar fulano, em nome de Jesus”. “O liquidificador vai funcionar agora, em nome de Jesus”. Na verdade, qual é o significado bíblico dessa expressão? Quando alguém permite que outra pessoa faça algo em seu nome, está lhe concedendo a autoridade pessoal que detém. Por exemplo, se um soldado raso chega a um capitão e lhe diz para preparar um automóvel o capitão não lhe obedecerá, pois o soldado não tem autoridade de solicitar isso a um superior. Mas se um general diz a um soldado raso: “Vá até o capitão em meu nome e lhe diga para preparar um automóvel”, aquele soldado acabou de receber a autoridade que o general tem sobre o capitão para aquela tarefa especifica. Então ele pode chegar ao capitão e dizer: “Estou vindo em nome do general solicitar que prepare o carro” e o capitão obedecerá o soldado porque o pedido é segundo a autoridade do general. Em nome dele. Com Jesus é igual. Os homens não têm autoridade de expulsar demônios. Mas quando você expulsa “em nome de Jesus”, é a autoridade que nos foi concedida por Deus que está realizando aquele feito. Do mesmo modo, ser humano algum tem poder em si para curar uma doença sem ser por meios médicos. Mas se você ora “em nome de Jesus” pela cura, é a capacidade milagrosa de curar que Jesus tem e que nos foi concedida que está atuando. Ou seja, a forma correta de usarmos essa expressão é somente quando podemos substitui-la por “segundo a autoridade de Jesus concedida a mim para este fim”.

- “Jesus não criou hierarquias nem liturgias” – errado. Basta você ver que no céu existem anjos e arcanjos. O prefixo “arc” significa “o principal”, “o primeiro”, “o de maior autoridade”. Por isso, arcebispo é o principal dos bispos. Do mesmo modo, fica claro que no reino celestial o arcanjo tem um papel hierarquicamente superior a um anjo. Esse princípio do mundo espiritual também é aplicado na terra. A Bíblia manda respeitarmos as autoridades e diz que nenhuma autoridade há que não tenha sido constituída por Deus. Também manda servos obedecerem seus senhores. Afirma à mulher que deve ser submissa ao marido. Ou seja, em todas as instâncias da vida humana – seja política, profissional ou familiar – as Escrituras deixam claro que há uma hierarquia. Seria de se estranhar muito que justamente na vida espiritual isso não ocorresse. A Bíblia deixa claro que havia na Igreja do primeiro século pessoas com cargos de supervisão (o “bispo”, conforme mencionado nas epístolas a Tito e Timóteo. Os apóstolos tinham um papel de liderança, basta ver no episódio de Ananias e Safira e basta reparar como Paulo dá determinações às igrejas em suas epístolas. E aqui cabe uma observação: hierarquia não quer dizer que alguém é melhor do que outro ou mais especial. Simplesmente que desempenha uma função com maior poder de decisão. É como o capitão de um time de futebol: ele é igual aos demais, mas dentro de campo é quem dá as decisões. E, acima dele, está o técnico, que tem, inclusive, o poder de decidir substituir o capitão.

Já a liturgia fica clara quando Jesus institui a Ceia. É um cerimonial litúrgico por natureza: tem ordem, as etapas seguem uma ordem, há um modo de proceder, há a repetição da forma de fazer a cada vez que se celebra. A História conta que os encontros da Igreja no primeiro século seguiam uma liturgia não muito diferente dos cultos de hoje, com louvores cantados, a leitura das cartas ou textos considerados canônicos e uma exposição do Evangelho por quem liderava o encontro. Logo, hierarquia e liturgia não foram, como alguns equivocadamente afirmam, instituídos pelo imperador Constantino ao oficializar a fé cristã como religião oficial do Estado: são bem anteriores – no mínimo 200 anos anteriores.

- “Posso ser cristão em casa, sozinho, sem congregar” – esse é um erro vindo do desconhecimento sobre a essência de nossa fé. O Evangelho é, por essência, um estilo de vida coletivo. 1 Coríntios 12 deixa claro que somos um corpo. Um membro decepado de um corpo é uma anomalia grotesca. Jesus nunca propôs o isolamento como padrão e, mesmo quando se retirava para orar sozinho, levava consigo alguns de seus apóstolos. Portanto um cristão que não congrega está desobedecendo o padrão divino.

- “Não existe pecadinho ou pecadão” – existe sim. A partir do momento em que existe um pecado (a blasfêmia contra o Espirito Santo) que não tem perdão e que a Bíblia diz que há pecados que são para a morte e outros que não são (independente da interpretação que se dê a isso, há muitas: “Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará, e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore. Toda a iniquidade é pecado, e há pecado que não é para morte” – 1 Jo 5.16,17.), automaticamente fica claro que há gradações. Só haver um pecado imperdoável já é prova disso. No sentido de que qualquer pecado é desobediência a Deus… naturalmente todo pecado é equivalente, mas isso não desmerece que em suas consequências há sim níveis. A Bíblia é clara quanto a isso.

- “Manto!” – essa só pentecostal entende. Se bem que eu sou pentecostal e até hoje não entendi isso.

Por enquanto é isso. Se você se lembrar de mais algum clichê dos nossos dias usado nas igrejas, entre desigrejados, entre tradicionais ou pentecostais…não importa, entre cristãos em geral, basta acrescentar nos comentários. Só peço uma coisa: explique por que aquela palavra, expressão ou frase está biblicamente incorreta. Apenas mencioná-la não vai acrescentar. Se for o caso, faremos uma apreciação em cima do seu comentário.

Quem sabe assim, parando para pensar sobre o que falamos sem pensar… paremos um pouco para pensar sobre o que falamos! E, talvez, seja o caso de eliminarmos certas frases feitas do nosso meio que parecem corretas mas na verdade só servem para confundir. Ou não servem para nada mesmo. Tão ligados na fiação, varão e varoa dos mantos de fogo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Maurício Zágari é jornalista, escritor e editor do blog Apenas. Divulgação: Púlpito Cristão.

03/05 por: Leonardo Gonçalves 6 Comentários.

Quando o meu deus sou eu

Por Maurício Zágari

Sempre que lemos a passagem do bezerro de ouro em Êxodo 32 temos um sentimento ruim com relação ao povo de Israel. Deus o tinha livrado do Egito, fez aquele incrível milagre da abertura do Mar Vermelho (você consegue imaginar a experiência de ter visto e vivido aquilo?) e ainda assim aquelas pessoas tomaram as rédeas de sua vontade, passaram por cima da vontade do Senhor e fizeram o que lhes parecia mais conveniente. Dá para entender a decepção de Moisés ao ver aquilo, traduzida numa fúria que o fez quebrar as tábuas com os mandamentos. Sim, aquelas pessoas foram de uma falta de fé, de um imediatismo e de um egoísmo atroz. Mas… por que as condenamos? Já parou para pensar que se estivesse entre eles você faria parte da multidão idólatra? E a explicação é simples: faz parte da má natureza humana não ter paciência de esperar em Deus e resolver tomar as rédeas de seu destino, sem aguardar por aquilo que o Senhor planejou fazer. Israel erigiu o bezerro de ouro simplesmente porque não teve fé suficiente para esperar o tempo de Deus. Só que o tempo chegou e Moisés desceu do monte. O resultado você sabe.

Nas palavras de Deus, quem não tem fé para esperar por Sua ação e erra pela autossuficiência é “corrupto” e “desviado”. Ouça o que Ele diz a Moisés: “Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que lhe havia eu ordenado”. O desagrado do Todo-Poderoso é claro. A partir do versículo 9, Ele deixa claro que não há como abençoar quem assim o faz: “Disse mais o Senhor a Moisés: Tenho visto este povo, e eis que é povo de dura cerviz. Agora, pois, deixa-me, para que se acenda contra eles o meu furor, e eu os consuma”.

Duro. Uma leitura superficial nos leva a crer que a ira do Pai se acende apenas pela idolatria. Mas se formos fundo nessa passagem veremos o que havia no coração do povo, a origem dessa idolatria. Em Êxodo 1, as causas de todo o problema ficam bem claras: “Mas, vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão e lhe disse: Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós”. Aí está. O povo queria respostas rápidas. Não soube esperar. Queria que Moisés já tivesse descido. Estava impaciente. Não teve fé de que a demora tinha uma razão divina. Como quem esperava “tardou”, o povo decidiu resolver da sua forma, à sua maneira, com suas próprias mãos. Pecado. Aquele povo sem fé, sem paciência e sem esperança estava tão ávido por resolver logo as coisas – da sua maneira – que veja a hora em que a Bíblia revela que começaram a adorar o bezerro: “No dia seguinte, madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se”. Repare a pressa: eles madrugaram.

A avidez daqueles que eram chamados de “povo de Deus” fez com que acordassem de madrugada para cometer seu pecado, tão impacientes que estavam. Se Deus não resolve, vamos nós mesmos tomar a frente! E logo! Esperar o sol nascer para quê?

A partir do versículo 21, temos a explicação ainda mais profunda da falta de fé, impaciência, autossuficiência e consequente idolatria do povo de Deus: “Perguntou Moisés a Arão: Que te fez este povo, que trouxeste sobre ele tamanho pecado? Respondeu-lhe Arão: Não se acenda a ira do meu senhor; tu sabes que o povo é propenso para o mal”. Eis aí, meu irmão, minha irmã. O mal que carregamos em nosso coração é o grande culpado. Somos maus e por isso não acreditamos que Deus pode fazer o melhor para nós se apenas esperarmos mais um pouco. Somos maus e por isso nos guiamos por vista e não por fé. Somos maus e por isso tomamos das mãos de Deus a solução para nossas dúvidas e questões. Somos maus e por isso praticamos a idolatria: seja a de um bezerro de ouro, seja a de nós mesmos, quando nos pomos no lugar de Deus, o atropelamos e dizemos “seja feita a MINHA vontade”.

Tomamos as decisões no tempo que achamos conveniente de forma “desenfreada”, como diz o versículo 25. Isto é, sem freios, sem nada que nos faça parar: a razão, conselhos, pregações, testemunhos, exortações, nada. Nada nos freia. Nada nos para. Queremos e por isso fazemos, mesmo que saibamos que deveríamos esperar o tempo de Deus. Moisés era a pessoa certa. Era por Moisés que deviam esperar. Mas, pela impaciência e falta de fé de que Moisés chegaria, o povo pegou um substituto, Arão, e com ele fez o bezerro de ouro. Pobres miseráveis.

A Bíblia nos revela o desfecho daquele pecado: desgraça. Três mil homens foram mortos a espada. E mais: “Feriu, pois, o Senhor ao povo”. Falta de fé. Impaciência. Autossuficiência. Idolatria. Pecado. Uma coisa leva à outra. A última etapa dessa sequência é morte e sofrimento.

Meu irmão, minha irmã. Se você deseja algo de Deus, não deixe que as aparências o enganem. Não se deixe conduzir pelas circunstâncias ou pelo que humanamente falando parece ser. Deus não trabalha segundo padrões humanos. Deus não age no tempo do homem. A lógica de Deus não é a nossa lógica. Deus cria situações aparentemente sem solução, verdadeiros becos sem saída, apenas para saber até onde vai a sua fé nEle. Você confia ou não? Crê no que parece impossível ou não? Na maioria das vezes o mal que há em nós nos leva a esquecer nossa fé e agir de modo que possamos “ver”, “controlar”. Mas sem fé é impossível agradar a Deus. E aí não esperamos Moisés. Pegamos um Arão qualquer e dizemos: “Você serve. Pois você estamos vendo e com você à vista temos como controlar nossas vidas. Agora faça o bezerro de ouro”. Pronto. A desgraça está feita.

Tenha fé. Tenha paciência. Tenha confiança. Jesus não é só alguém em quem fingimos confiar quando cantamos “Rompendo em fé” nos cultos. Isso é mole de fazer. Cantar e não fazer é facílimo. Facílimo e mentiroso. Pois na hora que precisamos romper em fé mesmo… será que o fazemos? Ou assumimos o controle da situação, nos aliançamos com Arão e pecamos?

Deus não se interessa por um povo que não confia nele. Os que não souberam esperar acabaram mortos ou feridos. É assim que você quer acabar?

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

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Direto do blog do Apenas.

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