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07/06 por: Leonardo Gonçalves 4 Comentários.

A Imarcescível Chama da Verdade

Por Jofre Garcia

Pensar amedronta!

Isso mesmo!

Um dos exercícios mais amedrontador que podemos experimentar em nossa experiência existencial, é a capacidade de pensar. Não apenas pensar um hábito quase instintivo, incapaz de romper qualquer fronteira do meu “eu”, de minha micro dimensão de existência, com todas as cargas de influencias externas e os mecanismo dos seus dogmas. Pensar como um ato libertário capaz de fazer estremecer a alma e sentir-se livre para questionar os meus mais profundos paradigmas.

Pensar causa revoluções, primeiramente uma revolução interior, um redescobrir de si, um reinterpretar, um ressurgir do que se é, do que se quer, do que se vem a ser.

Nem todos conseguem galgar degraus tão conflitantes, embora todos tenham em si a capacidade de descortinar-se e seguir novos passos em novos rumos, passos e rumos que sempre estiveram ali, mas nossos olhos embasados pelo lugar-comum não conseguiam enxergar. É que estávamos acomodados com uma verdade que nos disseram, com uma verdade que inventaram, com uma verdade que alienava.

No entanto, bem que tudo isso pode ser sombras, escuras, gélidas, sufocantes. Mas a chama da verdade sempre estará no além das sombras nos convidando a descobrir o sol e suas cores, e sabores, e aromas que nas sombras eram apenas uma idéia inexata.

Em nossa história humana existiram alguns homens que foram capazes de romper com os limites estabelecidos por uma sociedade mergulhada na ignorância mitológica e suscetível a manipulações governamentais. Um desses homens foi Sócrates, que perturbava seus contemporâneos argüindo-os com perguntas aparentemente patéticas, mas que provocavam uma inquietação existencial em seus inquiridos, e isso mexeu com sua geração, e ele foi considerado um perigo, principalmente pelo modo como influenciava a juventude.

Caramba! Era demais!

Além de pensar o cara ainda fazia outros pensarem também, e isso é um perigo.

Quando Sócrates criou o mito da caverna (quem o transcreveu literariamente foi Platão), ele deu vida a uma metáfora transcendente que percorreria os séculos seguintes como um retrato da vida humana condicionada a uma verdade imposta. É, também, uma analogia quanto a nossa infância existencial, quando vivemos em nossa pequena ilha desconhecendo o continente a nossa frente.

Hoje, muitos vivem em suas próprias cavernas, muitos insistem em permanecer em suas sombras, muitos teimam em suas próprias “verdades” e chegam a achar confortáveis as correntes paradigmáticas que o prendem, por que ir de encontro a chama fora da caverna requer esforço e determinação.

Séculos depois surgiu alguém propondo um desafio: “…e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Essa verdade não pode ser a “verdade” de cada um, porque todos nós estamos condicionados a compreensão da fenomenologia deste mundo-caverna que conhecemos. E, esse alguém veio do além-caverna, onde a chama imarcescível da verdade resplandece dando real sentido ao existir humano.

Seguindo o oposto do Mito da Caverna onde um acorrentado subiu o monte e veio anunciar, Ele era livre, entrou na caverna para libertar.

É inegável algumas similaridades entre a Boa Nova de Jesus e a filosofia de Sócrates e Platão.

Seria Cristo Pós-Socrático, Pós-Platônico?

Não tenho a ousadia de criar novos conceitos teológicos-filosóficos, sei, apenas, que em Cristo as buscas de Sócrates e Platão pela verdade se encerram.

Teriam Sócrates e Platão, dito ou predito a verdade?

Se disseram ou pré-disseram é porque a receberam de quem a tinha. Não entremos em pânico, cristãos, pois toda verdade vem de Deus e Ele a concede a quem quer.

Então, saia da caverna…

Em Cristo. A Verdade.

***
Jofre Garcia faz coluna aqui no Púlpito Cristão e edita o Auxílio do Alto.

30/05 por: Leonardo Gonçalves 3 Comentários.

Os desconhecidos do reino dos Céus

Por Samuel Costa

Todas as vezes que precisei de ajuda (mas ajuda, mesmo), daquelas em que a gente clama a Deus e ninguém mais ouve, sempre veio a mim gente humilde, gente pequena demais para figurar entre os grandes.

Sim; todas as vezes que eu realmente precisei de uma mão pra segurar a minha, não foram os poderosos que me socorreram, nem os “amigos” que antes me pediram ajuda, dinheiro e tempo para ouvir-lhes as lamentações da vida.

Não. Não foram eles. Também não foram os que postam fotos nas redes sociais, aparentemente felizes e sorridentes, tendo sempre nas mãos copos de bebidas para dar um ar de celebração.

Quem foram (e são) os meus ajudadores? Foram (e, em geral, são) os despercebidos, os pequenos, os desconsiderados… mas justos em Cristo Jesus.

Sim, por alguma razão misteriosa que só Deus pode explicar, eles acabam me encontrando sem terem meu endereço, telefone, e-mail ou contato algum. Milagrosamente Deus os envia pra me ouvir, segurar minhas mãos, endireitar meus joelhos vacilantes. É gente de Deus, que sara minhas feridas, aplicando nelas o óleo da graça que todo bom pastor carrega em seus pertences da alma.

“Pastor, oro pelo senhor todos os dias de madrugada”, me constrange a velhinha humilde, de coque na cabeça, preso com grampos singelos. Mas quem pediu a essa bondosa senhora para orar por mim, senão meu fantástico e gracioso Pai? “Pastor, eu quero ajudar financeiramente na plantação de sua igreja”, me fala por diversas vezes o irmão desconhecido pela maioria, sem que eu pedisse qualquer oferta, senão ao Pai dele e meu. E ele ajuda com alegria.

“Samuel, está tudo bem?”, pergunta minha irmã amada, do outro lado do mundo, preocupada comigo e minha família. Só Deus faz isso. Só Ele levanta irmãos e irmãs dos lugares mais inusitados para me lembrar de sua graça e me fazer experimentar mais uma vez “a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder”. (Efésios 1:19).

Estes são os desconhecidos do reino dos Céus, mas não no reino dos Céus. Pouquíssimos os vêem, mas eles estão aqui, ali, lá…

Quando menos se espera, surgem diante de nós, como por um milagre, enviados pelo Senhor. E sem pronunciarem palavra alguma que os credencie como embaixadores de Deus, alteram nossa existência com um sonoro: “Olá! Fui enviado pelo Senhor dos Céus, que reina sobre a terra – o Todo Poderoso -, para responder a sua oração.”

E assim, socorrendo, orando, motivando, ficam firmes ao meu lado, sem nada pedirem em troca.

Sua recompensa é certa. Não será dada por mim, pois nada há que eu faça, por maior e melhor que eu faça, que retribua o bem desses queridos irmãos.

A recompensa virá do Senhor. Meu amado Senhor.

***
Vi no Blog do Samuel Costa e me comovi. Divulgação: Púlpito Cristão.

28/05 por: Leonardo Gonçalves 3 Comentários.

JESUS TE AMA! E OS CRISTÃOS?

Por Samuel Torralbo

É muito comum encontrarmos pessoas afirmando que, são afeiçoadas pela pessoa e obra de Jesus Cristo, mas que, sentem aversão e pavor em relação aos seus seguidores, ou aquilo que conhecem como igreja.
Quero afirmar que, creio integralmente na verdade bíblica que revela a igreja de Cristo como um organismo extraordinário, amoroso, unificado, e relevante na expressão da sua missão de glorificar a Deus através de Cristo Jesus.

Porém, a igreja é formada por homens e mulheres dotados de relatividades e imperfeições, que invariavelmente no curso da história glorificaram a Deus através de sua fé e praticidade de vida, mas que, de contrapartida, infelizmente alguns “cristãos” deixaram impressões equivocadas e estarrecedoras na mente de inúmeras pessoas que ainda não pertencem à família de Deus.

De modo que, é interessante para o seguidor de Jesus se colocar no lugar de uma pessoa que ainda não pertença a igreja. Por exemplo – O que será que acontece no coração de uma pessoa quando se depara com a seuinte frase em um outdoor: JESUS TE AMA! Será que sua mente volta-se para o significado da cruz e o sacrifício de Jesus, ou inevitavelmente associa esta frase ao último escândalo religioso de algum líder eclesiástico, ou alguma atitude insana de um vizinho codenominado “cristão”?

Infelizmente, durante muito tempo ouvi inúmeras declarações absurdas de cristãos alienados das escrituras e da própria história que na intenção de justificarem as suas idiossincrasias e farisaísmos declaram: “Assim como Jesus não agradou, é normal a igreja não agradar”. Isto é um grande ENGODO!

Primeiro porque, estar com Jesus sempre foi algo extraordinário, tanto que as multidões buscavam de alguma forma estar perto de Jesus – “E seguiram-no grandes multidões..”(Mt. 19.2). Segundo porque, a história da Igreja relata a impressão que a sociedade tinha dos primeiros cristãos: “Os cristãos cumprem todos os seus deveres de cidadãos e suportam todas as suas obrigações. Os cristãos não diferem dos demais homens pela terra, pela língua, ou pelos costumes. Não habitam cidades próprias, não se distinguem por idiomas estranhos, não levam vida extraordinária.

Qualquer terra estranha é pátria para eles; qualquer pátria, terra estranha. Tem a mesa em comum, não o leito. Vivendo na carne, não vivem segundo a carne. Os judeus hostilizam-nos como alienígenas; os gregos os perseguem, mas nenhum de seus inimigos pode dizer a causa de seu ódio”. (Trecho da carta a Diogneto). Ainda em relação a vida dos primeiros cristãos em sociedade, observe o que Atos 2.47, relata: “Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo.

E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”. Ou seja, o motivo das perseguições e ódio em relação a Jesus e seus discípulos na maioria das vezes sempre estiveram relacionados aos interesses narcisistas da classe política e sacerdotal que por medo de perderem os seus cargos perseguiam qualquer movimento que interpretassem como oposição.

De modo que, conviver com um cristão deveria sempre ser uma experiência agradável, única, libertadora, e que aprofundasse no outro, os significados e percepções em relação vida e a eternidade com Deus.

Podemos ser perseguidos e injustiçados por causa da nossa fé, convicção, pregação e vida piedosa, mas nunca, por práticas desafeiçoadas, que infelizmente se manifestam em alguns pseudocrístãos, o que inevitavelmente faz inúmeros incrédulos pensar que cristianismo é – 1) Preconceito religioso, 2) Legalismo, 3) Confraria de pessoas alienadas e exclusivistas, 4) Comprimento de costumes e regras, 5) Ajuntamento de pessoas sem nenhuma beleza ou bom gosto existencial, etc.

Diante disto, no mínimo cada discípulo deveria se perguntar – qual é a associação que uma pessoa faz diante de uma declaração do amor divino, com relação aos seguidores de Jesus? O que as pessoas pensam sobre os cristãos contemporâneos? Qual é a impressão que estamos deixando nas pessoas através do nosso culto e maneira de viver?

Estou persuadido de que, em síntese a funcionalidade real do evangelho parte do seguinte pressuposto: antes de declararmos: JESUS TE AMA, cada cristão precisa prioritariamente AMAR, para que se cumpra a oração de Jesus pelos seus discípulos: “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”. (João 17.21)

***
Samuel Torralbo é colaborador do Púlpito Cristão.

13/05 por: Leonardo Gonçalves 13 Comentários.

Os Protestantes Amam Maria

Por Jofre Garcia

Maria é um dos personagens mais fascinantes do Novo Testamento. Cultuada e adorada por uns a ponto de ter sido alçada na qualidade de deusa ou semi-deusa, ou simplesmente ignorada por outros que não meditam na importantíssima missão que a virgem de Nazaré cumpriu exemplarmente.

Assim como João Batista, Pedro, Tiago, João Evangelista, Paulo, Etc. Maria ocupa um lugar proeminente na teologia neotestamentária, no entanto, em nenhuma hipótese, por mais bem intencionada que seja, podemos descentralizar a história da Redenção da figura de Jesus, porque é Ele que é o Cristo. É o seu sangue que é a Nova Aliança, derramado em favor de muitos (e não de todos). É o seu sacrifício na cruz que aplaca a ira de Deus. É a sua missão que eficaz e eficientemente conduz o homem a Deus. Na história da Redenção Jesus é o protagonista inigualável. Todos os outros (incluindo Maria), foram coadjuvantes (leia-se: cooperadores) desse roteiro divino.

Não pretendo discorrer neste artigo sobre a soberania de Deus na concepção e encarnação de Cristo, mas pretendo extrair algumas considerações sobre essa figura santa e amada por Deu e, que deve ser amada por todos aqueles que se proclamam cristãos, a saber: Maria de Nazaré, a mãe do salvador.

Uma das mais absurdas idéias que geralmente se tem dos protestantes é que não gostam de Maria ou que até nutrem pesados e negativos sentimentos por ela. Todavia isso se dá pelo julgamento precipitado e precoce que costumeiramente fazemos por não conhecermos o que é diferente de nós, por ignorarmos grupos que diferem do nosso modo de pensar e compreender o mundo. Como protestante que sou estudante da Escrituras Sagradas, obra na qual tenho dedicado minha vida, e sendo, também, pesquisador da história eclesiástica, posso afirmar que nenhum sentimento há por Maria que não seja o respeito, a admiração e o amor na ortodoxia e na ortopraxia protestante. Afirmo, ainda, que o verdadeiro protestante, o evangélico ama a Maria e a tem no mais elevado conceito na galeria dos heróis da fé.

Porém, a amamos pelo que ela é, e isso está mais do que explícito na Palavra de Deus. Maria não é deusa, nem semideusa, nem co-redentora, nem intercessora, etc. Ela é, sim uma agraciada e santa serva de Deus que se colocou submissa para que a Obra do Senhor se efetivasse no mundo, nos dando assim, notáveis exemplos de fé, coragem, humildade e serviço.

Por isso a amamos!

Amamos Maria por sua fé. Uma fé que reside no Deus que prometera através das profecias ministradas pelos seus santos profetas, que o próprio Altíssimo faria morada no homem. Fé no Deus de Israel, único Deus, que não podia, não pode, nem poderá jamais ser representado por qualquer imagem de escultura ou coisa semelhante. Fé no Deus que torna possível o que é impossível para resgatar os seus escolhidos.

Que possamos ter a fé que Maria praticou no Deus que a salvou.

Amamos Maria por sua coragem. Não um arroubo histérico a ponto de sair pulando e gritando “aleluias” e “glórias” e em meio a bravatas orgulhosamente declarar “Deus falou comigo!” “Deus falou comigo!”. Coragem verdadeiramente cristã, pois o quadro a sua frente era trágico e sombrio, uma jovem virgem desposada de um respeitável cidadão acha-se grávida antes do casamento. O que lhe esperava era a execração social e o apedrejamento. Mas, mesmo em face de tamanho desafio, aquela jovem coloca-se nas mãos de Deus confiando inteiramente naqu’Ele que a comissionava: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua vontade” (Lucas 1.38). Coragem essa que faria corar qualquer apologeta de hoje, moldados numa teologia meramente circunstancial.

Que possamos ter a coragem de Maria.

Amamos Maria por sua humildade. Muitas vezes quando alguém fala alguma coisa acerca da Maria geralmente o seu comentário não ultrapassa o parto de Jesus. No entanto, o exemplo de humildade da jovem de Nazaré perpassa toda a sua vida. Além de reconhecer Deus como seu salvador pessoal, Maria nunca se apropria de qualquer posição que de alguma forma viesse a suplantar o Filho ou qualquer dos apóstolos. E quando, mesmo sem ter ainda uma dimensão exata do que lhe acontecera era despertada por Cristo, e humildemente guardava no coração aquelas verdades. Maria tinha plena consciência que Ele era o Salvador, o Cristo e, assim, como João Batista, sabia que importava que ele (Jesus) crescesse e todos os demais diminuíssem.

Que possamos ter a humildade de Maria.

Amamos Maria pelo seu serviço. Mais do que qualquer outra pessoa, Maria foi uma serva, na expressão máxima da palavra. Entregou-se inteiramente a sua missão sendo uma mãe exemplar no cuidado, no carinho e no amor por seu filho. E quando o ministério público de Cristo se manifestou, lá estava Maria, não ordenando, não querendo fazer do filho um mero milagreiro, mas preparando as ferramentas e servindo ao Mestre. O seu serviço deixa-nos um mandamento eterno para todos os povos, principalmente os cristãos. Em Canaã, não opera o milagre, crê no Filho e apontando para Jesus, exorta: “Fazei tudo que Ele vos disser” (João 2.5).

Que possamos servir a Jesus como Maria.

Oh! Maria santa! Maria mãe de Jesus que o povo evangélico ama e procura seguir o seu exemplo de fé operosa, de coragem testemunhal, de humildade verdadeira e de serviço constante, revelando o mais profundo dom de Deus: o amor!

Maria de Nazaré, não a das imagens e estátuas, não a Maria das rezas e mantras, não a Maria da adoração ritualista e pagã. Mas, a serva do Deus Altíssimo cujo ensino ecoa não apenas em nossos ouvidos, mas em nossos corações e consciência que Cristo Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida e que, portanto, é a Ele que devemos seguir, assim como ela seguiu.

Amamos Maria, João, Pedro, Tiago, Paulo…Símbolos e exemplos da fé evangélica que de uma vez por todas foi dada aos santos.

N’Ele, em quem reside toda a plenitude de Deus.

***
Jofre Garcia é colunista do Púlpito Cristão e edita do Auxílio do Alto.

09/05 por: Leonardo Gonçalves 2 Comentários.

Solilóquio, uma conversa no espelho

Por Rev. Hernandes Dias Lopes

A marca distintiva da sociedade contemporânea é a superficialidade. Somos rasos em nossas avaliações. Falta-nos reflexão. Falta-nos introspeção. Estamos atarefados demais e cansados demais para examinarmo-nos a nós mesmos. Corremos atrás de coisas e perdemos relacionamentos. Sacrificamos no altar das coisas urgentes, as coisas que de fato são importantes. Como muito bem afirmou George Carlin, num artigo sobre o paradoxo do nosso tempo: “Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores. Falamos demais, amamos raramente e odiamos frequentemente. Aprendemos a sobreviver, mas não a viver; adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos. Fomos e voltamos à lua, mas temos dificuldade de cruzar a rua e encontrar um novo vizinho. Conquistamos o espaço sideral, mas não o nosso próprio espaço. Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores. Limpamos o ar, mas poluímos a alma; dominamos o átomo, mas não nosso preconceito. Construímos mais computadores para armazenar mais informação, mas nos comunicamos cada vez menos. Estamos na era do fast-food e da digestão lenta; do homem grande de caráter pequeno; lucros acentuados e relações vazias. Essa é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados”.

Solilóquio é conversar consigo mesmo. É olhar nos olhos daquele que vemos no espelho e enfrentá-lo sem subterfúgios. É entrar pelos corredores da alma e não escapar pelas vielas laterais. É lidar com o nosso mais difícil interlocutor. É falar com o nosso mais exigente ouvinte. A introspecção, porém, é uma viagem difícil de fazer. Olhar para dentro é mais difícil do que olhar para fora. É mais fácil falar para uma multidão do que conversar com a nossa própria alma. É mais fácil exortar os outros do que corrigir a nós mesmo. É mais fácil consolar os aflitos, do que encorajar-nos a nós mesmos. É mais fácil subir ao palco e pregar para um vasto auditório do que conversar com aquele que vemos diante do espelho.

O salmista, certa feita, estava muito triste e percebeu que precisava endereçar sua voz não para fora, mas para dentro. Então disse: “Por que estás abatida ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Sl 42.11). É preciso dizer à nossa alma que a tristeza não vai durar para sempre. Devemos levantar nossos olhos e saber que Deus está no controle da situação, ainda que agora isso não seja percebido pelos nossos sentidos. Devemos proclamar, em alto e bom som para nós mesmos, que o louvor e não o gemido; a alegria e não o choro é que nos esperam pela frente. Não nos alarmemos com nossas angústias; consolemo-nos com as promessas de Deus.

Não basta reflexão, é preciso introspecção. Não basta falarmos aos outros, precisamos falar a nós mesmos. Não basta lançarmos mão do diálogo, precisamos de solilóquio. O salmista, disse certa feita: “Volta minha alma ao teu sossego, pois o Senhor tem sido generoso para contigo” (Sl 116.7). Muitas vezes, ficamos desassossegados, quando deveríamos estar em paz. Curtimos uma grande dor na alma, quando deveríamos estar experimentando um bendito refrigério. E por que? Porque deixamos de pregar para nós mesmos. Deixamos de exortar nossa própria alma. Deixamos de fazer viagens rumo ao nosso interior. Deixamos de conversar diante do espelho. Deixamos o solilóquio. É preciso alertar, entretanto, que o solilóquio só é saudável, quando estamos na presença de Deus, quando nossa esperança está em Deus, quando encontramos em Deus nosso refúgio e fortaleza, quando podemos dizer como o salmista: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu”.

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